sábado, 26 de abril de 2008
9.0 Richter
Daí eu volto para a sala e alguém pergunta: "Teve terremoto?" Diante do nonsense da pergunta, minha única reação foi rir e voltar aos meus afazeres. Só quando eu cheguei em casa que soube, surpreso, que efetivamente houve um tremor de terra horas antes.
Que coisa. Meros cinco segundos (acho que foi isso) de tremor, que muita gente nem sentiu, e foi o bastante para horas e horas de sensacionalismo barato na tevê. Obviamente que eu perdi algum tempo pensando a respeito, como não poderia deixar de ser... Por que tanto se falou nisso?
Eu tenho uma teoria. Uma teoria que tem a ver com as pessoas ao meu redor (boa parte delas, pelo menos) e comigo mesmo.
As pessoas buscam segurança. Buscam por certezas na vida. É realmente desesperador imaginar que o chão, aquilo que temos como mais firme nesse mundo - pelo menos no Brasil - de repente não nos oferece mais a segurança a que estamos acostumados. Isso só me faz crer, cada vez mais, que segurança é ilusão.
É ilusão no sentido de que é só mais uma sensação da nossa mente, que se fecha à realidade que insiste em tentar em nos mostrar que, bem ou mal, tudo acaba.
Na faculdade nos falam sobre a segurança que o direito oferece à sociedade. Engraçado como essa idéia resiste a todas as revoluções.
Tratamos de construir algo com as pessoas ao nosso redor. É-nos abominável a idéia de morrer no abandono...é menos penoso imaginar-se no leito de morte velhinho, rodeado de entes queridos, talvez. Mas sempre nos esquecemos de que, no instante em que a última centelha que nos anima se extinguir, estaremos invariavelmente sós.
Vejo algumas pessoas passando por situações pouco agradáveis. Algumas confiam numa Providência que vai dar um jeito em tudo. Outras são otimistas, apenas. Há ainda os que se entregaram à inércia do conformismo ou ao niilismo. Daqueles que, por outro lado, tentam mudar o que acham que não está bom em suas vidas, alguns obtêm êxito. Seja porque conseguiram aquilo que queriam, seja porque isso serviu para operar uma mudança em si mesmos.
A vida neste mundo é mudança. Mesmo nossas escolhas envolvem riscos, e tentamos nos cercar de todas as garantias quando temos que escolher um caminho. Isso não é escolha! Escolher nunca deixará de implicar perda... pelo menos daquilo que se deixou de escolher. Outro dia me disseram (manifeste-se nos comentários quem o fez, não se deixe impedir pela modéstia) que para nascer é necessário romper justamente com aquilo que nos mantém vivos! E isso de fato é lindo porque ironicamente ou não, intencionalmente ou não, dramaticamente ou não, isso é a síntese de tudo o que nos aguarda.
Outra coisa que me disseram: a vida não é uma sucessão de fases intercaladas por provações: escola - vestibular - trabalho... É uma continuidade de contingências determinadas por escolhas que quase nunca estamos em posição privilegiada o bastante para analisar com cuidado.
Não quis fazer auto-ajuda. Não quis fazer desabafo. Mas eu tinha que fazer essas observações antes de ir dormir.
sábado, 5 de abril de 2008
Do tributo ao atributo
Aí, quando eu já estou conformado, abro o arquivo das provas. Vem lá um caso prático e em seguida alguns itens para responder. Aparentemente nada muito desafiador.
O primeiro ponto pedia para determinar os principais institutos jurídicos envolvidos no caso. Daí comecei a refletir sobre o que diabos eu deveria entender por "instituto jurídico" e comecei a viajar. Vai vendo.
É engraçado pensar sobre o significado das palavras, porque parece que a gente chega, em última instância, num grande vazio. A título de exemplo, um exercício metalinguístico: o verbete "dicionário" provavelmente nos remeterá a "livro" e este, por sua vez, a "obra", que me remeteu a "trabalho", e daí a "atividade", definida como "qualidade", daí passando a "atributo" e então a "ser". Resolvi fechar o dicionário nesse ponto, em que a pesquisa começava a se tornar literalmente metafísica.
Ainda hoje eu estava lendo a Paidéia, livro que eu comecei a ler pelo menos uns seis meses antes de iniciar este blog (o que já faz um ano, por sinal) e ainda estou na metade. Um dia eu ainda consigo terminar a l
eitura. Enfim, sem divagações: lá eu estava lendo sobre Platão, mais especificamente sobre um diálogo dele em que Sócrates, desocupado-mor de Atenas (palavras minhas, até porque o Jaeger acha esses caras o máximo) estava discutindo com um sofista sobre a essência da virtude. O problema era mais ou menos o mesmo que surgiu para mim, já que Sócrates queria demonstrar que as várias qualidades que a gente reconhece como virtuosas (justiça, heroísmo, discernimento etc) não são elas próprias virtudes, senão aspectos da Virtude, que é única, justamente pelo fato de reconhecermos virtude em todas essas ações.Claro que tudo isso só pode levar à Teoria das Idéias do Platão. Aí a coisa fica mais complicada. A teoria original, segundo Jaeger, está fundada nessa concepção de eidos, que seria exatamente o resultado desse exercício de generalização. O que ferra tudo é que Platão apela para a questão da reencarnação para explicar o porquê de reconhecermos as essências das coisas. Jaeger diz também que a Teoria das Idéias sofreu deturpação pela Lógica moderna que, apoiada em Aristóteles, afirma que em vez de resolver o problema do Ser, Platão teria complicado ainda mais, fazendo uma duplicação desnecessária do Ser.
Até que eu concordo com o Jaeger. Dá mesmo para defender que a resposta de Platão era de cunho lógico, e não ontológico; logo, ele não poderia ter pensado que os conceitos existem materialmente... até porque "conceito" nem era uma noção estabelecida à ocasião. Não que a explicação do Platão não tenha outros problemas.
Será que os sofistas, adversários de Sócrates (se ele também era um sofista, aí já é questão pra outro dia), é que estavam certos? Será que, no fim das contas, é tudo totalmente relativo mesmo? A gente sempre pensa a palavra como um instrumento, mas aí eu penso que toda ferramenta tem que ter algo por trás para poder agir. E, ao fazer essa análise, seja com os vocábulos, seja com as idéias, o único destino que eu vejo é uma regressão ad infinitum - ou talvez pior - ao vazio.
Fica aí a provocação. Voltarei a esse tema, mas não agora. Preciso continuar a responder as questões nem tão existenciais do Direito Tributário.
Nota ao rodapé:
Imagem: Platão, do verbete de mesmo nome, na Wikipedia.
sexta-feira, 28 de março de 2008
um pouco de papo furado...
Por experiência própria, sei que ficar investigando a origem do mundo realmente pode pôr alguém doido. Aliás, a esse respeito ver um post que eu escrevi lá no começo do blog quase, sobre Parmênides... foi ele quem mais me perturbou com suas teorias. No entanto, gostaria de trazer mais alguns questionamentos que, mesmo sendo explicáveis em certo sentido, não deixam de ser fascinantes, porque, afinal de contas, esse mundo é realmente muito estranho e como me foi dito a alguns meses, a natureza não é lógica:
1- A gente aprende na escola que o cerebelo é um cérebro primitivo. Então me respondam: por que ele é responsável pelos movimentos mais refinados do corpo, que provavelmente só se manifestam culturalmente? Quero dizer, o cerebelo é responsável pelo equilíbrio e por movimentos de destreza ou delicadeza. Esses últimos só passaram a ser mais visados quando o homem descobriu a técnica, o instrumento e a arte...ou não?
2- Nós precisamos nos alimentar para viver. No entanto, o metabolismo do alimento oxida nossas células. Curioso, não? Aquilo que fazemos para viver é responsável, ao mesmo tempo, pela nossa morte.
3- Seguindo um pouco pela mesma linha dialética do tópico anterior, a personagem-título do romance Sidarta, de Hermann Hesse, diz a seu amigo Govinda que aprendeu a respeitar todos os seres vivos e não-vivos porque eles contêm em si o germe de Buda e da perdição. Trocando em miudos: considerando o big-bang a origem do universo, você, de alguma forma, já estava lá. Do mesmo modo, você já foi tudo que existe. Tudo isso sem nem sair do lugar, porque se não houver nada além do universo, não há que se falar em referencial no espaço (remeto ao texto sobre Parmênides - Matando o tempo - mais uma vez). Ou seja: você é o todo se diferenciando num desenvolvimento interno. Talvez por isso que, em mais de uma ocasião, eu perdi a noção de individualidade meditando.
É, dá mesmo para ficar meio louco. Assombrado, pelo menos. Como se já não bastasse o mundo visível e seus simpáticos habitantes para nos enlouquecer, ainda procuramos o que está além para nos gerar alguma angústia.
sábado, 22 de março de 2008
(des)Encanto
Não que eu ache ruim. Agora mesmo, estou assistindo a um filme sobre Moisés (mais especificamente a cena em que os primogênitos dos egípcios morrem)... Curto a tentativa de reconstituição histórica e cultural da coisa toda. Para alguém que quando mais jovem queria ser arqueólogo (taí um exemplo de como muitas coisas acabam perdendo o encanto com o passar do tempo...essa idéia vai permear todo o texto), todo esse clima de Antigüidade é bastante convidativo.
Mas ultimamente, em relação aos relatos religiosos de um modo geral, tenho refletido mais sobre o fascínio das estórias do que sobre a confirmação da História. Tudo ao mesmo tempo épico e singelo, terno e retumbante.
(opa, Moisés está abrindo o Mar Vermelho agora).
Há um aspecto particular que me encanta e intriga: os deuses eram tão mais próximos de nós antigamente! Falavam conosco, combatiam conosco... alguns até transavam conosco (não que eu me inclua aqui, foi força de expressão). Por que será que, depois da Antigüidade, a atuação de todas as entidades de todos os panteões parece ter se tornado mais discreta?
Credo quia absurdum, dizia Tertuliano. Diante do que se afigurava para nós absurdo, só restava mesmo crer. Hoje a ciência está aí, explicando fenômenos outrora assombrosos (agorinha mesmo, Moisés tirou água da pedra), não deixando muito lugar para divindades, santos e mitos no coração das pessoas.
Por amor à filologia e ao meu último post, quando eu criticava a mania de citações, tenho que fazer um parêntese aqui: Tertuliano nunca disse essa frase. O texto original dizia credibile est, quia ineptum est (De carne Christi 5.4); e dizia respeito, como sugere o título da obra, à polêmica presente nos primeiros tempos do Cristianismo, a saber: seria Cristo feito de carne como nós ou uma presença imaterial? (à primeira vista ambas as frases têm idêntico sentido, e o tema cabalístico demais para desenvolver aqui, portanto remeto o leitor de uma vez por todas para http://www.tertullian.org/articles/sider_credo.htm ).
Voltando. A ciência ultimamente tem se "intrometido" muito na seara da religião, que a meu ver não tem que ter tanto compromisso com racionalidade. Pelo menos não por si. Mas o raciocínio que se propõe lógico, científico e irrefutável está sempre visitando o campo da religião. Às vezes, isso acontece por convite da própria religião, como se deu com a adaptação do aristotelismo ao catolicismo (influência inexistente entre os cristãos orientais) ou, para pensar num exemplo mais afastado de nossa realidade, com o Budismo indiano, que através dos tratados do Abhidhamma Pitaka pretende descrever o conjunto de todas as sensações possíveis através do cruzamento de séries de categorias fundamentais, ou seja, conferindo lógica a Maya (o mundo visível) por meio de permutações.
É, parece que o homem está mesmo disposto a trocar a sarça ardente do deserto pela árvore de possibilidades da matemática (diga-se, aliás, que no colégio esta me parecia muito mais árida).
Outras vezes, a ciência faz suas incursões à revelia da religião. Desde as bizarrices - nem tão bizarras assim - do v. Däniken, que corre o mundo tentando provar que os deuses na verdade eram astronautas, até os cientistas que atribuíram as pragas do Egito a um desequilíbrio ambiental, passando por muito mais coisas que soam um tanto desnecessárias.
Justiça seja feita, muitas vezes a reação da religião diante da ciência é desproporcional e tola (Galileu e células-tronco são casos paradigmáticos).
Não penso, entretanto, que tudo se resuma a uma treta de foice entre a fé e o ceticismo do progresso da ciência, por mais que estejamos vivendo uma nova revolução tecnológica, a passos muito mais largos do que as anteriores, e quase ninguém se dê conta disso.
Talvez seja o homem que se desencantou. Faz alguns milênios que trocamos as florestas pela civilização, novos espaços foram se diferenciando desde então (política, economia e mesmo família...campos que antes caminhavam junto da religião) e isolando o espaço do fantástico. Nos afastamos da natureza e, conseqüentemente, do divino. Quer coisa mais discrepante do que procissão de domingo de Ramos no centro de São Paulo? A esse respeito, vale lembrar que existem estudos muito interessantes - sim, científicos - sobre a correlação entre a diversidade do ecossistema e a pluralidade de entidades duma religião (o que ajudaria a entender o porquê de os povos do monótono deserto tenderem à monolatria enquanto que os gregos tinham aquela multidão de deuses...).
É isso. Talvez eu esteja me encaminhando para conclusões um tanto românticas e idealistas, motivo pelo qual fico por aqui.
Oxalá um pagão ainda eu fosse,
Por velhas ilusões acalentado.
A paisagem seria bem mais doce
E o mundo muito menos desolado
William Wordsworth, poeta inglês (1770-1850).
(E Moisés acaba de receber as tábuas da Lei).
domingo, 2 de março de 2008
Com o ouvido no rádio
Certa vez eu estava ouvindo a CBN e o repórter comentava sobre a quantidade absurda de citações erradas que os parlamentares têm feito em seus discursos em Brasília. Eu já havia lido algo a respeito numa dessas Vejas que infestam as salas de espera desse mundão nosso ("velho, esse cara deve ter esperado um bocado" é o que você deve estar pensando... ah, a propósito dessa revista pavorosa, vai vendo: http://www.projetobr.com.br/web/blog/5#6304 ) e é realmente intrigante a capacidade dos caras de desencavar pérolas de Os Sertões ou transformar linhas do Bobbio em frases de efeito para se safar nas votações pela cassação, entre tantas outras papagaiadas. Capacidade intrigante, mas não tão estranha - pelo menos a mim -, já que o que mais há no mundo jurídico é o festival das citações.
De qualquer modo, creio que seria de bom tom que todos nós - políticos, juristas, jornalistas, escritores, estudantes e toda sorte de (des)ocupados - tenhamos o mínimo de responsabilidade antes de sair por aí citando autores quando muitas vezes eles: a) não disseram a frase que atribuímos a eles; b) se disseram, não foi exatamente daquele jeito; ou c) se foram eles que disseram, e daquela exata maneira, provavelmente o contexto é que não tem nada a ver.
Se nós tivéssemos esse cuidado, impediriamos que tantos caras do naipe de Shakespeare ("Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã [??] filosofia"), Nietzsche (frases como "O Evangelho morreu na cruz" ou "O que não me mata me fortalece" seeempre perfeitamente contextualizadas) ou Fernando Pessoa ("Navegar é preciso, viver não é preciso") e Cnaeus Pompeius Magnus (que foi quem realmente disse o célebre "navigare necesse, vivere non necesse" atribuído a Pessoa, muito embora tenha morrido uns bons mil e novecentos anos antes do escritor português nascer) façam par com aquele indivíduo desconhecido citado ironicamente por Nelson Rodrigues em O óbvio ululante: "Tudo é memória, disse não sei quem".
§§§
Outra da CBN: Comentário do Dimenstein. Para quem não sabe, ele fala na rádio sobre capital humano, educação e coisas afins. Acho muito bacana, embora dessa vez eu deva ressalvar o que, na minha opinião, é uma avaliação simplista. Ele contava sobre um projeto de lei aqui em São Paulo que institui uma premiação para professores e funcionários de escolas cujos alunos apresentassem bons índices (um plus no salário no fim do ano, se não me engano). O legal dessa iniciativa, segundo ele - e aqui eu concordo - é que todos os responsáveis pelo colégio receberiam essa gratificação (desde o faxineiro até o diretor). Sim, é louvável. Só que daí o comentarista fecha com algo do tipo "assim, aqueles que se esforçam mais são recompensados e os que não se esforçam tanto deixam de ganhar um pouco mais" (faz um tempo que eu ouvi isso, espero não cometer o pecado da citação que eu criticava há pouco).
Francamente. Creio que não foi essa a idéia que ele realmente quis passar, mas isso está mais para papo de economia do que de política educacional. "Ah, você vê o esforço dos docentes e funcionários e compara com os resultados dos alunos ceteris paribus e zaz". Quero dizer, eu penso que não adianta falar em desmotivação por parte daqueles que trabalham nas escolas paulistanas se de repente as contingências do meio não colaboram para que haja um aprendizado saudável ou mesmo condições de trabalho adequadas...miséria, descaso, criminalidade. Sem comentários.
Nota ao rodapé:
1- Confesso que eu mesmo só fui confirmar que a frase não era de Fernando Pessoa nas aulas de latim na faculdade. Aliás, citando (er...) certo franciscano jocoso: Ave Darci, morituri te salutant! Bons tempos de calouro.
2- "Mas que m... é essa de ceteris paribus?" pergunta você. É isso aqui, respondo eu: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ceteris_paribus ... vinda diretamente das aulas de econometria com o livro do Mankiw, mas essa já não é uma das minhas melhores lembranças de calouro.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Tá bom, vamos falar de Budismo!

Foi o que eu exclamei quando me lembrei deste blog, que por sinal estava às moscas, no meio de uma discussão sobre o tema. Como ainda há muuuuito o que se estudar a respeito, vou voltar várias vezes a isso. Não deixa de ser um estudo de uma filosofia do mais alto refinamento, que é, aliás, um dos objetivos dessa página - discutir filosofia!
Pois bem, quem foi Siddatha Gotama, o Buda por excelência, e o que ele tem a nos dizer? Vamos fazer uma pequena viagem pelos textos do cânone para ter uma idéia...
Gotama nasceu como príncipe de um clã guerreiro do norte da Índia, os Shakyas. Viveu cercado de luxo durante toda a juventude, a tal ponto que, por volta dos 20 anos, nem se dera conta de que as pessoas sofrem, envelhecem e morrem... pasmem!
Certa vez, durante um passeio para além dos limites do palácio, viu um velho doente...depois, um cortejo fúnebre...aí ele começou a sacar que as coisas boas não duram para sempre...
aliás, nada dura para sempre....
Retornando ao seu harém, abriu a porta e teve uma epifania...viu nas belas mulheres que lá estavam um monte de velhas decrépitas e moribundas XD ...estava caindo na real, como se diz.
Brincadeiras à parte, fato é que ele ficou realmente perturbado com as coisas...ficou inquieto, quis partir em busca de um sentido (esse mesmo impulso me moveu por um mar de idéias ao longo do último ano até chegar no Budismo), e foi isso mesmo que ele fez. Abandonou o palácio, a esposa Yasodara e o filho recém-nascido, Rahula.
"Antes do meu Despertar quando eu ainda era um Bodisatva não iluminado, eu pensei: 'A vida em família é confinada, um caminho empoeirado. A vida santa é como o ar livre. Não é fácil viver em casa e praticar a vida santa completamente perfeita, totalmente pura, como uma concha polida. E se eu raspasse o meu cabelo e barba, vestisse os mantos de cor ocre e seguisse a vida santa?' "
No começo, ele se uniu às tradições ascetas da Índia...com um grupo desses ascetas viveu algum tempo, mortificando-se ao extremo, em busca de alguma purificação...coisas do tipo comer apenas um grão de arroz por dia, até chegar ao ponto de tocar o ventre e sentir a coluna...
"Eu pensei: 'Todos os contemplativos ou brâmanes que no passado experimentaram sensações dolorosas, torturantes e penetrantes devido ao esforço, isto é o máximo, não existe nada além disso. Todos os contemplativos ou brâmanes que no futuro experimentarão sensações dolorosas, torturantes e penetrantes devido ao esforço, isto é o máximo, não existe nada além disso. E todos os contemplativos ou brâmanes que no presente experimentam sensações dolorosas, torturantes e penetrantes devido ao esforço, isto é o máximo, não existe nada além disso. Mas, através desta prática de austeridades atormentadoras eu não alcancei nenhum estado supra-humano, nenhuma distinção em conhecimento e visão digna dos nobres. Poderia haver um outro caminho para a iluminação?"
também viu que não era por aí....
"Agora, tendo comido comida sólida e recuperado as minhas forças, afastado dos prazeres sensuais, afastado das qualidades não hábeis eu entrei e permaneci no primeiro jhana, que é caracterizado pelo pensamento aplicado e sustentado, com o êxtase e felicidade nascidos do afastamento. Mas essa sensação prazerosa que surgiu em mim não invadiu a minha mente e permaneceu."
Com isso, ele descobriu o caminho do meio:
“ Bhikkhus, há esses dois extremos aos quais aquele que abandonou a vida em família e seguiu a vida santa não deve se entregar. Quais dois? A busca da felicidade nos prazeres sensuais, que são baixos, vulgares, grosseiros, ignóbeis e que não trazem benefício; e a busca da mortificação, que é dolorosa, ignóbil e que não traz benefício. Evitando esses dois extremos o Tathagata despertou para o Caminho do Meio, que faz surgir a visão, que faz surgir a sabedoria, que conduz à paz, ao conhecimento direto, à iluminação, a Nibbana.
“ E qual, bhikkhus, é o caminho do meio para o qual o Tathagata despertou, que faz surgir a visão ... que conduz a Nibbana? É este Nobre Caminho Óctuplo: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correta. Esse, bhikkhus, é o caminho do meio para o qual o Tathagata despertou, que faz surgir a visão, que faz surgir a sabedoria, que conduz à paz, ao conhecimento direto, à iluminação, a Nibbana."
e as quatro nobres verdades:
“Agora, bhikkhus, esta é a nobre verdade do sofrimento: nascimento é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, enfermidade é sofrimento, morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; a união com aquilo que é desprazeroso é sofrimento; a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento; não obter o que queremos é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento.
“Agora, bhikkhus, esta é a nobre verdade da origem do sofrimento: é este desejo que conduz a uma renovada existência, acompanhado pela cobiça e pelo prazer, buscando o prazer aqui e ali; isto é, o desejo pelos prazeres sensuais, o desejo por ser/existir, o desejo por não ser/existir.
“Agora, bhikkhus, esta é a nobre verdade da cessação do sofrimento: é o desaparecimento e cessação sem deixar vestígios daquele mesmo desejo, abrir mão, descartar, libertar-se, despegar desse mesmo desejo.
“Agora, bhikkhus, esta é a nobre verdade do caminho que conduz à cessação do sofrimento: é este Nobre Caminho Óctuplo: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correta."
Notas ao rodapé:
1- Já deu pra perceber que é difícil tratar desse tema no mesmo estilo mais formal que eu gosto...é algo ao mesmo tempo muito e pouco racional...complicado de definir mesmo...
2- Imagem: http://cadernos-da-belgica.blogspot.com/2007/06/buda-detalhe.html
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Labirinto

O jovem acorda no meio da noite. Outra noite mal dormida, como há tempos. Desde a infância, na verdade. Enfim, ele se levanta, caminha alguns metros e abre a geladeira. A água gelada lhe percorre a garganta, oxigena seu cérebro e assim ele se sente desperto. Mais uns passos e contempla a cidade que dorme (ou não), apoiado contra a rede de proteção da janela – é sonâmbulo, então desde que se mudara para aquele “apertamento” no décimo primeiro andar, não consentiu em lá viver sem proteção nas janelas.
O grande relógio eletrônico que reina sobre os prédios marca 03h25m. Por mais que ele esteja acostumado às noites em claro, está preocupado, pois tem que acordar cedo para trabalhar. Antes era pior. Chegou a virar quase três noites seguidas sem fechar os olhos. Mas isso era no começo. Agora está mais acostumado com o ritmo estranho de vida na Grande Cidade, sem falar nas obrigações que agora se impunham. Ele sempre teve essa mania de querer fazer mil coisas ao mesmo tempo. Quase sempre, acabava não fazendo nenhuma delas: faltava-lhe foco, porque tudo o empolgava.
Pensa nos amigos. Nos poucos bons amigos que tomaram outros rumos e nos poucos bons amigos que fizera. Amigo bom permanece, não fisicamente, mas na certeza. Por isso sabia que eram bons, e que permaneciam. São caracteres concomitantes.
Na família, há de se confessar, pensa com mais naturalidade. É uma presença constante ainda, apesar da distância, pois com esta ele não perde o contato.
Também passou a encarar questões de sentimento como naturais. Se não for assim, não vale a pena.
A vida é uma coisa muito estranha. Muito dessa lição ele aprendeu nesses novos horizontes de pedra em que habitava, ora maiores que os de outrora, ora menores.
E ele gosta muito disso. Na íntegra. Talvez seja sinal de que a lição está sendo aprendida.
E lá se vão três anos na Urbe Paulopolitana. E que esses três anos se multipliquem por vinte, pelo menos, ó jovem!
Nota ao rodapé:
1- Imagem: http://www.braziltour.com/site/br/tour_produtos/lista_cidades.php?id_tour
domingo, 2 de setembro de 2007
Imortal
Também disse que ia me manifestar sobre os últimos acontecimentos na Faculdade de Direito da USP. Algumas pessoas têm me cobrado um texto (principalmente o Pombo). A essas pessoas, peço calma. Estou levantando informações. Mas, como dizem, temos que escrever quando vem a inspiração, caso contrário ela passa sem ser aproveitada. Hoje é mais uma viagem no (ou sobre) o tempo.
Sexta-feira apresentei, junto com alguns colegas, um seminário sobre Hannah Arendt. Não gosto muito dela. Na verdade, todos esses pensadores que tentam imprimir um esquema muito lógico à História estão fantasiando. Mas é óbvio que algumas coisas que ela diz são interessantes ou, pelo menos, conseguem me remeter a outras coisas instigantes.
Para Arendt, assim como para Jaeger, a grande perturbação do primeiro pensamento grego foi a questão de superar a mortalidade humana através da memória, enquanto conservação e transmissão da futilidade das ações do homem, que tendem a evanescer. A natureza não precisa da memória, pois não distinguimos nela o individual. Só há o coletivo, que brota e se torna perpétuo com a reprodução. Tanto faz ver uma floresta hoje ou daqui cem anos: se a natureza segue seu rumo normal, será uma e mesma coisa, por sua característica de “Ser-para-sempre”. Tudo o que vem a ser, brota e existe é natureza para os gregos (essa é a acepção de Physis, cuja investigação levou aos filósofos Físicos, aqueles preocupados justamente com a cosmogonia e o princípio das coisas).
E a Eternidade... Bom, a Eternidade consiste exatamente naquilo que está fora do tempo. Nós percebemos o tempo por este estar atrelado à mudança e ao movimento. Toda ordem tende ao Caos, de modo que o fluxo que leva à desorganização (no caso das coisas perecíveis) e à conclusão de mais um ciclo (quanto às coisas imortais), quando medidas, acusam a passagem do tempo. Parmênides e Zenão perceberam de forma bastante acurada a dicotomia Tempo-Espaço, e como o caminho da opinião equivocada pode levar ao absurdo a esse respeito. Tudo que é subjacente a tal movimento é o Eterno. Aquilo que não surgiu nem vai acabar, justamente por estar fora do tempo (para este parágrafo, remeto ao post “Matando o Tempo”, infra).
Graças à relação entre movimento e passagem do tempo que se pode traçar um diagrama como esse proposto pela Hannah Arendt (aqui, toscamente desenhado), no qual a linha negra é a imortalidade, as linhas vermelhas são os mortais e, acrescento, o fundo azul claro imóvel é a Eternidade. Essa representação não é tão original como possa parecer. Afinal, o que é um relógio de ponteiro senão a tradução do tempo em movimento?
Voltando ao problema propriamente humano, devo confessar que a partir do momento em que comecei a tentar enxergar a questão da imortalidade sob o ponto de vista grego, fiquei mais tranqüilo. De fato, já que não se pode ter certeza sobre o além-túmulo a ponto de ter uma expectativa otimista (nesse ponto os gregos não chegam ao mesmo patamar do Budismo Theravada, que nega qualquer Metafísica... taí um ótimo tema para um post futuro...), mais sábio é fazer as coisas acontecerem por aqui mesmo. “Fazer sua a beleza”, como diria Aristóteles. Pois os grandes feitos, esses são evidentes por si e levam seu autor, de uma forma ou de outra, à imortalidade.
A imortalidade da memória.
Nota ao Rodapé: Livros a que faço referência: Entre o Passado e o Futuro (Hannah Arendt); Paidéia (Werner Jaeger).
quarta-feira, 22 de agosto de 2007
Ziggurath

A narrativa está em Gênesis, 11. Diante da audácia humana, que pretendeu alcançar os céus por meio de uma torre, Elohim não só pôs abaixo a construção como confundiu as línguas dos habitantes da cidade - Babilônia -, a fim de que eles não conseguissem mais se entender e unir esforços para desafiá-Lo.
A torre de Babel é uma fábula. Alguém poderia dizer que é muito simples interpretar essa estória, já que Babilônia era uma metrópole e, como as metrópoles de hoje, reunia pessoas das mais diversas origens, falantes de idiomas diversos. Bastou isso para que o escriba bíblico condenasse, de forma poética, os zigurates construídos em honra dos deuses dos ímpios.
Etimologicamente, Babel vem de Bab'ilu - "o portal do deus". A transliteração hebraica resultou em Bavél, que por sua vez é uma paranomásia (espécie de trocadilho), envolvendo a raiz hebraica para o verbo "confundir".

Mas eu diria que D's foi demasiado cauteloso, pois não carecia confundir as línguas para que os homens não se entendessem. A incompreensão é algo que está conosco desde sempre.
O que me motiva a dizer isso é constatar que pouco importa o que façamos, o mundo vai continuar a mesma porcaria. As pessoas continuam pensando apenas em si. Agem como se suas ações só dissessem respeito a si mesmas e simplesmente desconsideram o outro (sem imaginar que um dia ele pode se mostrar o Outro - aquele que se voltará contra elas).
É como disse uma amiga minha, com quem conversava sobre minhas angústias: "As pessoas esperam tolerância e compreensão das outras, mas elas mesmas não são tolerantes nem compreensivas".
Talvez eu esteja levando a sério demais algo que eu mesmo considero imutável. O fato de estar incrédulo em relação à maior parte das pessoas me fez perder a paciência com gente. Isso me fez ser ríspido, impaciente e amargo com as pessoas. Não todas as pessoas. Mas, ainda assim, a maioria.
E tudo que eu quero é reerguer a minha torre. Mas apertar a tecla SAP também serve.
Notas ao rodapé: 1- Imagem n°1: Gustave Doré- "Confusão das Línguas"
Imagem n°2: The Brick Testament http://www.thebricktestament.com/
domingo, 8 de julho de 2007
Geopolítica do tráfico
A matéria a que me refiro tratava de um livro didático que estaria causando polêmica entre educadores e autoridades. Geografia: sociedade e cotidiano, de Dadá Martins, Francisco Bigotto e Márcio Vitelo, traz dados sobre o espaço habitado pelo homem, como qualquer livro de geografia comum. Deve ser uma obra de qualidade, no mínimo, razoável, já que foi aprovado pelo MEC para uso pelos alunos de Ensino Fundamental da rede pública. No entanto, uma das informações oferecidas pela obra irritou setores determinados da cidade do Rio de Janeiro: um mapa da cidade dividido em zonas de influência das diversas organizações criminosas. Na mesma página, foto de uma ocupação policial no Complexo do Alemão.
Algumas vozes rapidamente se levantaram: César Maia, prefeito do Rio, obviamente preocupado com a imagem de sua cidade, tachou o livro de "panfleto", claramente insinuando que a motivação por trás do livro era muito mais ideológica do que pedagógica. Até aí, nenhuma novidade. No meu modo de ver, estamos sendo bombardeados por ideologia - seja ela qual for - a todo momento.
Professores escolares e pedagogos também contribuíram com a polêmica, ao declarar que o material é potencialmente nocivo aos estudantes, podendo significar uma influência negativa, até mesmo os impelindo a juntar-se aos criminosos (!).
Quantas questões interessantes isso evoca! Minhas opiniões a respeito:
1- Não é um livro de geografia? Geografia não seria a "descrição da Terra"? O subtítulo não se refere a cotidiano e sociedade? Ora, a questão do tráfico É uma realidade efetiva na nossa sociedade e cotidiano. Um esforço consciente para poupar os estudantes disso seria, a meu ver, um ato de alienação.
2- Dizer que o livro influenciaria negativamente os jovens, podendo levá-los a simpatizar com o tráfico e, eventualmente, entrar para seus quadros, é um reducionismo grosseiro. Se um mero livro didático tivesse tal efeito, seria simplesmente por catalisar uma série de fatores que já existem na materialidade do mundo. Vale dizer, a parcela da juventude exposta à criminalidade provavelmente já perdeu sua inocência há algum tempo, estando imersa em um ambiente em que é evidente a participação das organizações criminosas na dinâmica social. Ele não estaria refletindo sobre a leitura de um livro de geografia, como se fosse um observador externo a essa situação.
3- Muito desse pudor em mostrar as coisas como são vem, a meu ver, de uma filosofia do Politicamente Correto que se instalou de forma patológica, quase, desde que o pensamento democrático se reinstalou nesse país. Aqui, opiniões de Direita são demonizadas (qual é a minha posição política é estória pra outro dia), o eufemismo é a figura de linguagem preferida (não há pobres, há economicamente prejudicados). Essa coisa de o brasileiro ser irreverente é, sinceramente, balela.
4- Só para não me prolongar muito, um último ponto. Há que se reconhecer a diversidade de ordens dentro da sociedade. É óbvio que ela existe e os diversos movimentos no seu seio eventualmente conflitam. A normatividade não é uma só. Veja a Idade Média, por exemplo. Essa coisa de Estado onipotente e único editor das normas é uma concepção muito bem arquitetada pela ideologia do Estado Moderno e que, segundo Bobbio, culminou em Hegel e sua noção do Estado como deus terreno e sujeito último da História. Há um pluralismo jurídico que se manifesta nas lacunas deixadas pela atuação estatal. Onde o Estado não se impõe, aí brotará, de alguma forma, uma ordem. Há que se deixar o plano das idéias e ver os fatos.
Por tudo isso que tentei expor brevemente aqui, eu simplesmente não consigo concordar com todo o escândalo feito em torno desse livro. É a realidade. E ela é gritante, não basta queimar um livro didático para ocultá-la e prosseguir na aparente normalidade até que aconteça outro ato de violência para agitar a opinião pública e ser em seguida esquecido. Não sei se consegui me fazer entender, talvez seja tudo meio óbvio, mas é o que penso.
domingo, 1 de julho de 2007
Por que o sapo não lava o pé? Um problema filosófico

Saudações a todos!
Enquanto eu sigo pensando em algo mais sério pra postar semana que vem, reproduzirei aqui uma piada meio velha, mas que ainda acho legal. É uma paródia aos filósofos, que recebi por e-mail faz um tempo já.
Com vocês, a explicação dos diversos pensadores para a questão: Por que o sapo não lava o pé?
Marx: A lavagem do pé, enquanto atividade vital do anfíbio, encontra-se profundamente alterada no panorama capitalista. O sapo, obviamente um proletário, tendo que vender sua força de trabalho para um sistema de produção baseado na detenção da propriedade privada pelas classes dominantes, gasta em atividade produtiva alienada o tempo que deveria ter para si próprio. Em conseqüência, a miséria domina os campos, e o sapo não tem acesso à própria lagoa, que em tempos imemoriais fazia parte do sistema comum de produção.
Engels: isso mesmo.
Foucault: Em primeiro lugar, creio que deveríamos começar a análise do poder a partir de suas extremidades menos visíveis, a partir dos discursos médicos de saúde, por exemplo. Por que deveria o sapo lavar o pé? Se analisarmos os hábitos higiênicos e sanitários da Europa no século XII, veremos que os sapos possuíam uma menor preocupação em relação à higiene do pé – bem como de outras áreas do corpo. Somente com a preocupação burguesa em relação às disciplinas – domesticação do corpo do indivíduo, sem a qual o sistema capitalista jamais seria possível – é que surge a preocupação com a lavagem do pé. Portanto, temos o discurso da lavagem do pé como sinal sintomático da sociedade disciplinar.
Weber: A conduta do sapo só poderá ser compreendida em termos de ação social racional orientada por valores. A crescente racionalização e o desencantamento do mundo provocaram, no pensamento ocidental, uma preocupação excessiva na orientação racional com relação a fins. Eis que, portanto, parece absurdo à maior parte das pessoas o sapo não lavar o pé. Entretanto, é fundamental que seja compreendido que, se o sapo não lava o pé, é porque tal atitude encontra-se perfeitamente coerente com seu sistema valorativo – a vida na lagoa.
Nietzsche: Um espírito astucioso e camuflado, um gosto anfíbio pela dissimulação - herança de povos mediterrâneos, certamente - uma incisividade de espírito ainda não encontrada nas mais ermas redondezas de quaisquer lagoas do mundo dito civilizado. Um animal que, livrando-se de qualquer metafísica, e que, aprimorando seu instinto de realidade, com a dolcezza audaciosa já perdida pelo europeu moderno, nega o ato supremo, o ato cuja negação configura a mais nítida – e difícil – fronteira entre o Sapo e aquele que está por vir, o Além- do-Sapo: a lavagem do pé.
Filmer: Podemos ver que, desde a época de Adão, os sapos têm lavado os pés. Aliás, os seres, em geral, têm lavado os pés à beira da lagoa. Sendo o sapo um descendente do sapo ancestral, é legítimo, obrigatório e salutar que ele lave seus pés todos os dias à beira do lago ou lagoa. Caso contrário, estará incorrendo duplamente em pecado e infração.
Locke: Em primeiro lugar, faz-se mister refutar a tese de Filmer sobre a lavagem bíblica dos pés. Se fosse assim, eu próprio seria obrigado a lavar meus pés na lagoa, o que, sustento, não é o caso. Cada súdito contrata com o Soberano para proteger sua propriedade, e entendo contido nesse ideal o conceito de liberdade. Se o sapo não quer lavar o pé, o Soberano não pode obrigá-lo, tampouco recriminá-lo pelo chulé. E ainda afirmo: caso o Soberano queira, incorrendo em erro, obrigá-lo, o sapo possuirá legítimo direito de resistência contra esta reconhecida injustiça e opressão.
Kant: O sapo age moralmente, pois, ao deixar de lavar seu pé, nada faz além de agir segundo sua lei moral universal apriorística, que prescreve atitudes consoantes com o que o sujeito cognoscente possa querer que se torne uma ação universal.
Nota de Freud: Kant jamais lavou seus pés.
Freud: Um superego exacerbado pode ser a causa da falta de higiene do sapo. Quando analisava o caso de Dora, há vinte anos, pude perceber alguns dos traços deste problema. De fato, em meus numerosos estudos posteriores, pude constatar que a aversão pela limpeza, do mesmo modo que a obsessão por ela, podem constituir-se num desejo de autopunição. A causa disso encontra-se, sem dúvida, na construção do superego a partir das figuras perdidas dos pais, que antes representavam a fonte de todo conteúdo moral do girino.
Jung: O mito do sapo do deserto, presente no imaginário semita, vem a calhar para a compreensão do fenômeno. O inconsciente coletivo do sapo, em outras épocas desenvolvido, guardou em sua composição mais íntima a idéia da seca, da privação, da necessidade. Por isso, mesmo quando colocado frente a uma lagoa, em época de abundância, o sapo não lava o pé.
Kierkegaard: O sapo lavando o pé ou não, o que importa é a existência.
Hegel: podemos observar na lavagem do pé a manifestação da Dialética. Observando a História, constatamos uma evolução gradativa da ignorância absoluta do sapo – em relação à higiene – para uma preocupação maior em relação a esta. Ao longo da evolução do Espírito da História, vemos os sapos se aproximando cada vez mais das lagoas, cada vez mais comprando esponjas e sabões. O que falta agora é, tão somente, lavar o pé, coisa que, quando concluída, representará o fim da História e o ápice do progresso.
Comte: O sapo deve lavar o pé, posto que a higiene é imprescindível. A lavagem do pé deve ser submetida a procedimentos científicos universal e atemporalmente válidos. Só assim poder-se-á obter um conhecimento verdadeiro a respeito.
Schopenhauer: O sapo cujo pé vejo lavar é nada mais que uma representação, um fenômeno, oriundo da ilusão fundamental que é o meu princípio de razão, parte componente do principio individuationis, a que a sabedoria vedanta chamou "véu de Maya". A Vontade, que o velho e grande filósofo de Königsberg chamou de Coisa-em si, e que Platão localizava no mundo das idéias, essa força cega que está por trás de qualquer fenômeno, jamais poderá ser capturada por nós, seres individuados, através do princípio da razão, conforme já demonstrado por mim em uma série de trabalhos, entre os quais o que considero o maior livro de filosofia já escrito no passado, no presente e no futuro: "O mundo como vontade e representação".
Aristóteles. O [sapo] lava de acordo com sua natureza! Se imitasse, estaria fazendo arte . Como [a arte] é digna somente do homem, é forçoso reconhecer que o sapo lava segundo sua natureza de sapo, passando da potência ao ato. O sapo que não lava o pé é o ser que não consegue realizar [essa] transição da potência ao ato.
Platão:
Górgias: Por Zeus, Sócrates, os sapos não lavam os seus pés porque não gostam da água!
Sócrates: Pensemos um pouco, ó Górgias. Tu assumiste, quando há pouco dialogava com Filebo, que o sapo é um ser vivo, correto?
Górgias: Sou forçado a admitir que sim.
Sócrates: Pois bem, e se o sapo é um ser vivo, deve forçosamente fazer parte de uma categoria determinada de seres vivos, posto que estes dividem-se em categorias segundo seu modo de vida e sua forma corporal; os cavalos são diferentes das hidras e estas dos falcões, e assim por diante, correto?
Górgias: Sim, tu estás novamente correto.
Sócrates: A característica dos sapos é a de ser habitante da água e da terra, pois é isso que os antigos queriam dizer quando afirmaram que este animal era anfíbio, como, aliás, Homero e Hesíodo já nos atestam. Tu pensas que seria possível um sapo viver somente no deserto, tendo ele necessidade de duas vidas por natureza,ó Górgias?
Górgias: Jamais ouvi qualquer notícia a respeito.
Sócrates: Pois isto se dá porque os sapos vivem nas lagoas, nos lagos e nas poças, vistos que são animais, pertencem e uma categoria, e esta categoria é dada segundo a característica dos sapos serem anfíbios.
Górgias: É verdade.
Sócrates: precisando da lagoa, ó Górgias meu caro, tu achas que seria o sapo insano o suficiente para não gostar de água?
Górgias: não, não, não, mil vezes não, Ó Sócrates!
Sócrates: Então somos forçados a concluir que o sapo não lava o pé por outro motivo, que não a repulsa à água
Górgias: de acordo
Diógenes, o Cínico: Dane-se o sapo, eu só quero tomar meu sol.
Parmênides de Eléia: Como poderia o sapo lavar os pés, ó deuses, se o movimento não existe?
Heráclito de Éfeso: Quando o sapo lava o pé, nem ele nem o pé são mais os mesmos, pois ambos se modificam na lavagem, devido à impermanência das coisas.
Epicuro: O sapo deve alcançar o prazer, que é o Bem supremo, mas sem excessos. Que lave ou não o pé, decida-se de acordo com a circunstância. O vital é que mantenha a serenidade de espírito e fuja da dor.
Estóicos: O sapo deve lavar seu pé de acordo com as estações do ano. No inverno, mantenha-o sujo, que é de acordo com a natureza. No verão, lave-o delicadamente à beira das fontes, mas sem exageros. E que pare de comer tantas moscas, a comida só serve para o sustento do corpo.
Descartes: nada distingo na lavagem do pé senão figura, movimento e extensão. O sapo é nada mais que um autômato, um mecanismo. Deve lavar seus pés para promover a autoconservação, como um relógio precisa de corda.
Maquiavel: A lavagem do pé deve ser exigida sem rigor excessivo, o que poderia causar ódio ao Príncipe, mas com força tal que traga a este o respeito e o temor dos súditos. Luís da França, ao imperar na Itália, atraído pela ambição dos venezianos, mal agiu ao exigir que os sapos da Lombardia tivessem os pés cortados e os lagos tomados caso não aquiescessem à sua vontade. Como se vê, pagou integralmente o preço de tal crueldade, pois os sapos esquecem mais facilmente um pai assassinado que um pé cortado e uma lagoa confiscada.
Rousseau: Os sapos nascem livres, mas em toda parte coaxam agrilhoados; são presos, é certo, pela própria ganância dos seus semelhantes, que impedem uns aos outros de lavarem os pés à beira da lagoa. Somente com a alienação de cada qual de seu ramo ou touceira de capim, e mesmo de sua própria pessoa, poder-se-á firmar um contrato justo, no qual a liberdade do estado de natureza é substituída pela liberdade civil.
Horkheimer e Adorno: A cultura popular diferencia-se da cultura de massas, filha bastarda da indústria cultural. Para a primeira, a lavagem do pé é algo ritual e sazonal, inerente ao grupamento societário; para a segunda, a ação impetuosa da razão instrumental, em sua irracionalidade galopante, transforma em mercadoria e modismo a lavagem do pé, exterminando antigas tradições e obrigando os sapos a um procedimento diário de higienização.
Gramsci: O sapo, e além dele, todos os sapos, só poderão lavar seus pés a partir do momento em que, devido à ação dos intelectuais orgânicos, uma consciência coletiva principiar a se desenvolver gradativamente na classe batráquia. Consciência de sua importância e função social no modo de produção da vida. Com a guerra de posições - representada pela progressiva formação, através do aparato ideológico da sociedade civil, de consensos favoráveis– serão criadas possibilidades para uma nova hegemonia, dessa vez sob a direção das classes anteriormente subordinadas.
Bobbio: existem três tipos de teoria sobre o sapo não lavar o pé. O primeiro tipo aceita a não-lavagem do pé como natural, nada existindo a reprovar nesse ato. O segundo tipo acredita que ela seja moral ou axiologicamente errada. A terceira espécie limita-se a descrever o fenômeno, procurando uma certa neutralidade.
Notas ao rodapé:
1- Crédito ao Paulo Victor, que foi quem me mandou o e-mail. Desconheço a autoria do texto, mas de qualquer forma achei hilário;
2- Registre-se uma sonora risada ao "gosto anfíbio pela dissimulação"...e viva o "além-do-sapo"! E outra à mensagem de Freud a Kant. O "não, não, não, mil vezes não, Ó Sócrates!" de Górgias também foi grotesco;
3- Registre-se também que eu achei meio injusta a parte do Engels....eu tentaria fazer algo sobre os estágios da coletividade dos sapos...sociedade patriarcal e por aí vai...mas eu estou sem imaginação agora;
4- Se tem uma coisa que aprendi por conta própria na Sanfran foi a abominar o uso errado do "posto que", mas tá valendo...
5- Parmênides vive...só pra não perder o costume.
domingo, 24 de junho de 2007
Loucos de Todo Gênero
Faz algum tempo, mas ainda me lembro vagamente de uma matéria na TV em que o repórter visitou um manicômio. Lá pelas tantas, ele resolveu interpelar um doidinho que conversava com uma árvore:
- Você está conversando com a árvore??
- Sim.
- Não tem medo de acharem que você é louco?

De qualquer modo, acho que mais nociva que a loucura é a própria "normalidade". É difícil definir uma pessoa normal. À pergunta "Quem você acredita ser um exemplo de pessoa normal?" dificilmente acreditaria se a maior parte das pessoas dissesse: "eu mesmo". E caso assim fosse, eu certamente ficaria mais interessado em conhecer a parcela minoritária. Preocupar-se com as opiniões e o padrão de comportamento imposto - seja ele qual for, até porque dizer que é doido também já virou moda - não deixa de ser uma coisa meio anormal. Paradoxal. Mas eu não consigo deixar de pensar assim. Comecei o texto com uma anedota, e talvez seja bom fechá-lo com outra, de modo que eu possa exemplificar a conclusão a que quero chegar, após falar brevemente de alguns conceitos e definições da loucura. Um amigo meu (cujo nome não revelarei por razões óbvias: 1) ele falava de problemas pessoais e 2) muitos dos meus amigos acertadamente se julgam ensandecidos) desabafava sobre um caso que o afligia há algum tempo e estava o deixando, de certo modo, transtornado. Ele costumava falar sobre isso comigo porque eu já havia passado por situação parecida.
- Ah, Léo, será que eu estou ficando louco?
- Sinceramente, acho que quem nunca duvidou seriamente de sua própria sanidade mental dificilmente teve uma existência digna e plena de significado, que mereça realmente ser chamada de vida.
A frase foi muito espontânea. Mas parei pra pensar a respeito. E percebi que, louco ou não, eu deveria estar certo.Afinal, cada louco vive a sua realidade.
Notas ao rodapé: Sobre Nise da Silveira: http://pt.wikipedia.org/wiki/Nise_da_Silveira Na mesma página se encontra a figura que ilustra o post (o quadro de Vincent van Gogh).
ERREI: A frase "mehr Licht" foram as derradeiras palavras de Goethe, não de Nietzsche. Não corrigi no texto mesmo para não estragar sua estrutura.quinta-feira, 7 de junho de 2007
Matando o tempo

O fato é que eu não estava tendo tempo pra fazer nada além do que exigiam minhas obrigações (acadêmicas, em sua maior parte). Vontade enorme de alargar o tempo para que tudo que eu tinha de fazer coubesse na semana. O feriado veio em boa hora...pra conseguir pôr tudo em dia! Por outro lado, estou ansioso por conta de assuntos pessoais e profissionais que quero ver logo definidos. E esse tipo de coisa deixa a gente com vontade de fazer o tempo passar rapidamente. Contraditório. Da escuridão fez-se a luz, afinal. Se o tempo é meu algoz, sobre ele escreverei. A inspiração veio enquanto assistia a uma aula, pra variar. Ouvia, mais por osmose do que por uma vontade consciente de compreensão, o professor falar sobre o preceito aristotélico de que não há criação ex nihil. Explico: os gregos não admitiam a possibilidade de se extrair algo a partir do nada. Se antes não havia nada, eles pensavam, como daí pode surgir alguma coisa?
Essa idéia, creio eu, remonta a Hesíodo, que, como eu disse num post por aí lançou a idéia de causalidade entre os gregos, ou seja, a noção de que cada fenômeno tem sua origem em outro anterior. Tudo isso, em res
umo, porque ele escreveu um poema falando sobre as várias gerações dos deuses e a formação do mundo a partir do Caos. Algum tempo mais tarde, os seguidores de certo Parmênides de Eléia (foto ao lado) demonstraram que a mudança e o movimento não podem ser explicados logicamente. Conseqüentemente, não se poderia sustentar uma tese com base em algo que se engendra a partir do zero (a história toda é um pouco mais complicada, tive que pular umas etapas do pensamento pra falar dele, mas outro dia eu volto a falar a respeito com mais calma). Se as coisas sempre provêm de outras coisas, como fica em relação à primeira de todas as coisas, o princípio a partir do qual todo o resto surgiu? De onde ele veio? Surgiu do nada? Claro que não. Conseqüência? Só existe a eternidade. A percepção da dinâmica do universo deve ser cíclica, não linear, como costuma ser: não há um início ou um fim, apenas o eterno movimento (alguém dirá que, aqui, eu estou misturando Parmênides com Heráclito – a quem ele se opunha filosoficamente – mas, como também pretendo falar um dia, eles são muito mais harmônicos entre si do que parece).
Mas há o outro lado também. Aquele das religiões monoteístas; a visão segundo a qual o universo foi criado do nada. O defensor mais consciente dessa idéia, ao que me parece, é um pensador judeu medieval chamado Moshé ben Maymon – ou Maimônides, o Rambam. Sua interpretação da Torá, conhecida como Guia dos Perplexos, dialoga com Santo Agostinho e é possível de se harmonizar com os postulados da ciência moderna. Vamos ao argumento, antes que eu me empolgue e esqueça o assunto: À crítica de que um universo inteiro ser criado do zero é uma proposição ilógica, vez que o que compõe esse mundão de Deus deve ter tido origem em algo que havia antes; o Rambam responde, muito inteligentemente, que o universo não foi criado num momento determinado no tempo pelo simples motivo de que o próprio tempo surgiu com a criação. Genial. Antes não havia processo. Não havia causalidade, afinal não havia fenômenos para originarem outros fenômenos. O tempo nada mais é do que a consequência natural de as coisas estarem regidas pela lei da causalidade, obedecendo a uma ordem de sucessão. Em sentido psicológico, é a forma como percebemos esse fluxo dos acontecimentos naturais. Antes da criação (se é que se pode falar de algum momento antes da criação, nesse raciocínio), só se pode falar em tempo como algo imaginário, psicológico. Não havia espaço também – ao se formar o universo, o espaço surge a partir do referencial entre suas partes, ao mesmo tempo em que o tamanho total do universo permanece o mesmo: nenhum, já que fora do universo não há referencial para definir seu espaço.
Voltando ao Maimônides. Eu disse antes que suas idéias não contradizem o atual estágio do desenvolvimento científico. Pensamento assim sólido não poderá, obviamente, ser derrubado facilmente. Quer ver? Então veja:
1- Antes do Big Bang, a matéria do universo estava concentrada no ponto único, dito
singularidade, cujo volume era zero (tive um déjà vu...nada a ver dizer isso, mas achei interessante). Quebrei o raciocínio. VOLTANDO: Se o volume era zero, a densidade era infinita (d= m/v), logo é perfeitamente compreensível a singularidade dar origem a tudo que está aí (eu, você, Júpiter, computador, cachorro, vácuo, Antares, China – com todo mundo que está lá dentro, inclusive – , cometa Halley, papagaio e por aí vai...). 2- Minha avó já dizia (e Einstein também): em tal condição limite, a variável tempo deve ser tratada como um número imaginário.
Vou parar por aqui. Estou começando a me achar engraçado, e daí a falar bobagem não carece muito tempo. Não cheguei a nenhuma conclusão, como de costume. Mero experimentalismo. Nada mais que livre associação. Mas estou feliz: foi bom pra passar o tempo.
Notas ao rodapé:
1- O argumento de Aquiles e a Tartaruga: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminario/cantor/aquilestartaruga.htm .
2- http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx? Tópico da comunidade “Maimonides” no orkut. Boa parte da inspiração veio daí.
3- Sobre Parmênides: http://pt.wikipedia.org/wiki/Parmênides .
5- Imagens ex: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tempo ; http://www.educ.fc.ul.pt/ ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Parmênides . Irônico saber que o Einstein mostrou a língua achando que os paparazzi da época deixariam de persegui-lo. Virou sua foto mais conhecida.
domingo, 3 de junho de 2007
Você fala, fala e não diz nada?
Sempre com a sensação de que há algo a ser dito, mas você nunca sabe o que é?
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Você, assim como eu, está tendo um hiato criativo. É isso que a rotina e a previsibilidade fazem com você! Quando a pasmaceira intelectual acabar, escrevo mais a respeito.
P.S.: Se alguém aí quiser me ajudar a sair da rotina e da previsibilidade...
terça-feira, 17 de abril de 2007
O diálogo dos sofistas modernos
Leonardo: É...parece que nós estamos ficando mesmo cada vez mais relativistas, Paolo...
Paulo Victor: Ah, Lío...depende...
sexta-feira, 13 de abril de 2007
"É a vida..." ?!?

Pessoas são muito complicadas. Pensam no que os outros vão pensar a respeito de suas atitudes, ficam tentando demonstrar a todos que estão sempre certas, além de se pautar em termos de passado e futuro, o que é um absurdo se pararmos para pensar que nem um nem outro existem na realidade.
Assim, muitas vezes vão deixar de fazer o que querem e tentar impor sua visão ao outro. Tentam manter uma pose, mas é impossível desempenhar um papel por muito tempo. Invariavelmente acabam (se) decepcionando.
É isso aí. Como já nos ensinavam os Antigos, o Outro se voltará contra nós, caso não O aceitemos.
E depois disso tudo, ainda vai ter alguém para olhar e suspirar: “É a vida...”
A vida? A vida não é coisa alguma. Simplesmente aparenta ser alguma coisa pra você. A vida em si não existe, portanto creio que não devemos perder nosso tempo pensando nela. Só o fato de estar vivo já é algo grandioso demais para se perder tempo fazendo formulações a respeito.
No momento estou fisicamente cansado, então outro dia eu elaboro melhor meu pensamento. Só insisti em escrever agora porque finalmente tenho a impressão de conseguir superar essas preocupações. Estou me tornando alguém extremamente simples no modo de encarar a “vida” e as pessoas. E, conseqüentemente, parece que quanto mais simples me torno, melhor passo a enxergar o quão risíveis são as complicações das pessoas. As (complicações e pessoas) que me restam, inclusive.
Notas ao rodapé: Imagens: 1- Bela Lugosi’s Dead (Bauhaus) Ex http://www.youtube.com/watch?v=zq7xyjU-jsU ... não há um porquê especial para ter escolhido esta imagem para este post, apenas gosto dela...aliás, o que mais percebo ultimamente é que muita coisa não tem nenhum tipo de motivo. E buscar um motivo onde não há gera tremenda angústia.
quinta-feira, 5 de abril de 2007
Escrito nas estrelas

Sorte de hoje: Sua mente é criativa, original e perspicaz
Não sei o porquê, mas astrologia tem sido um tema recorrente nas minhas conversas nos últimos dias.
Seja nos papos sobre o horóscopo irreverente do Chantecler na piauí, seja discutindo a crença em Destino ou algo do tipo (coisa em que não acredito, diga-se de passagem)...O inusitado chega ao ponto de até um professor indagar meu signo (e fazer uma cara enigmaticamente feia ao saber que sou de Leão).
Esse tipo de discussão encerra um grande problema pra mim. Por um lado, tento manter uma visão holística do mundo, com todos os seus componentes interligados e interagindo, o que admite de forma muito natural (embora, talvez, não racional) a influência dos astros sobre a vida da gente. Só que é difícil conciliar isso com minha concepção de que somos nós quem devemos construir nosso Destino, e que este é fruto de nossas escolhas. Destino é uma idéia platônica demais para ser engolida numa boa. (Idéia platônica chega a ser um pleonasmo pior do que ar poluído...hum, tá bom, foi apenas uma observação pouco pertinente).
Até reconheço que o perfil traçado pela astrologia para cada signo costuma coincidir (sem juízos de valor em relação ao verbo utilizado, okay?) com o perfil das pessoas. Mas daí eu lembro daquela sacada genial dum grande amigo meu: “Humpf...horóscopo...como se só existissem doze tipos de pessoas...”. Tenho que reconhecer a força do argumento dele. Mas talvez haja um meio termo que nos possibilite conciliar as opiniões. Quem sabe se nós considerarmos os 12 signos como tipos puros...tipos ideais mesmo, ou como diria um outro professor, “um instrumental tecnológico que nos serve de ferramental para analisar as situações reais” (juristas e suas teorias para complicar o simples – custava simplesmente dizer que era uma abstração a partir da realidade? Acho que ainda assim está meio complicado, mas voltando...) possamos dizer que existem até mesmo tipos secundários, amálgamas da tipologia padrão.
Nisso eu me encaixo melhor. Tô ali, no último dia de Leão. Quase nasci sob Virgem. Mais pra lá do que pra cá. Saiu isso...alguém que adora ser notado, como típico leonino, mas que, paradoxalmente, é introvertido e fica tímido nas situações em que é notado – como um bom virginiano – . Ora, nada mais difícil de harmonizar do que esses dois caracteres tão discrepantes da minha personalidade, e que tantos problemas costumam me trazer.
Mas essa realidade, com a qual eu admito concordar em parte, só diz respeito ao psicológico dos indivíduos de determinado signo. E quanto às previsões? Será que realmente os acontecimentos estão dispostos numa ordem legível nas estrelas – coisa que eu insisto em não acreditar – ou a sorte não passa mesmo de uma grande roda em que um dia você está por cima e, no outro, está na pior (idéia presente tanto nos Carmina Burana quanto em qualquer música de corno por aí - sem ofensa aos cornos, é claro)?
O que torna uma ciência exata não é o fato de ela nunca falhar, e sim conseguir estabelecer uma margem de erro para seus prognósticos. Imagino que, no que toca à astrologia, apontar as próprias possibilidades de falhar está fora de questão, pois poderia ser um recurso à vagueza para impedir que as previsões fossem refutadas.
No fim das contas, pode ser que Shakespeare – aquele mesmo, o que entendeu tão bem a alma das pessoas de qualquer tempo sem precisar verificar o alinhamento dos planetas para tal – tenha mesmo razão quando escreveu, há não tão exatos quatrocentos anos, que há muito mais entre o céu e a terra do que supõe nossa filosofia. Por mais que se pense a respeito, qualquer conclusão não vai passar disso: suposição.
Notas ao rodapé: 1- Como se sabe, a sorte de hoje reproduzida no começo do texto saiu no famigerado horóscopo do orkut. Um dia falarei mais sobre ele.
sábado, 31 de março de 2007
Senta que lá vai história...
Hoje resolvi pôr aqui um texto, fruto de uma pequena pesquisa minha sobre as epopéias de Homero. Boa leitura xD
Aliás, cabe dizer que a leitura desse texto, a meu ver, se fecha num ciclo com o texto do Thiago Leal (A Virtude e suas Nuanças em Homero e Hesíodo), constante do blog dele (Altívago Nefelibata- link ao lado)
2.0- Ilíada, Odisséia e Homero
3.0- Impacto da epopéia homérica sobre a civilização grega
3.1- Aspecto educacional de Homero
3.2- Religião e filosofia
1.0 – Introdução
A proposta deste texto é analisar a Ilíada e a Odisséia, obras cuja autoria é convencionalmente atribuída ao poeta grego Homero, considerando os poemas sob quatro perspectivas, quais sejam a literária, a filosófica, a cultural e a histórica. O reconhecimento destes pontos de vista não significa que eles serão tratados como realidades estanques, uma vez que a pretensão, ao longo do texto, é tratar das quatro esferas de forma interligada, sem uma separação formal das perspectivas, que são postas em evidência, aqui, apenas como advertência quanto aos aspectos que eu tinha como relevantes ao desenvolver o tema.
Não é meu objetivo fazer um resumo dos eventos narrados nos poemas. Quando fiz referência ao enredo, foi tão somente no intuito de tornar mais claro algum ponto do raciocínio. O procedimento por mim considerado a melhor forma de abordar estas obras foi trazer à discussão alguns problemas decorrentes do estudo do legado de Homero. É justamente a questão da existência histórica deste autor, em conjunto com considerações de ordem literária, que inicia nosso estudo, em 2.0. Em seguida, terá lugar uma série de considerações sobre a importância da epopéia homérica para a formação cultural do povo grego, já inseridas minhas conclusões pessoais (3.0). Por fim, segue o detalhamento da bibliografia, tanto aquela em que me apoiei, quanto aquela que creio ser de interesse para nosso tema (4.0).
A abordagem que fiz não é, de forma alguma, exaustiva. Apoia-se nos principais pontos discutidos pelo grupo sobre as epopéias homéricas e em algumas obras a que tive acesso recentemente, nomeadamente as epopéias propriamente ditas, além dos comentários de Werner Jaeger e da introdução ao volume dos filósofos pré-socráticos, da coleção Os Pensadores, que predominou na primeira discussão sobre o assunto. Obviamente, muitos temas importantes ficaram de fora dessa breve dissertação, alguns justamente em razão do caráter sumário da exposição, outros pelo domínio ainda incipiente sobre o assunto. Algumas questões foram tratadas mais de uma vez, em partes diversas do texto, conforme a necessidade de abordá-las a partir de problemas de diferentes naturezas.
2.0 – Problema histórico de Homero. Aspectos gerais da epopéia
Principiei 1.0 afirmando que Homero é considerado autor dos poemas por convenção. De fato, essa expressão é a que julguei mais apropriada, já que afirmar a existência de um único autor historicamente determinado encerra sérios questionamentos no que se refere à possibilidade de se conhecer a Grécia primitiva por meio dos poemas e à questão do estilo bastante diverso de uma obra em relação à outra. Não pretendo enumerar aqui de forma exaustiva às muitas teorias já formuladas a esse respeito[1], e sim apresentar as fontes de tanto questionamento, ou seja, a problemática em si. Principiarei pela segunda questão, pois esta oferece maiores subsídios para o entendimento da primeira.
É amplamente conhecida a história narrada nos poemas da Ilíada e Odisséia. O primeiro poema é ambientado no cerco dos aqueus a Tróia, mas a guerra é apenas cenário para a ação principal. Esta se concentra em dois problemas principais. O primeiro é a ofensa sofrida por Aquiles, ao ter a posse da cativa Criseida (que ele recebera de seus companheiros gregos em razão de suas virtudes em combate) tomada pelo autoritário líder grego Agamemnon. O segundo grande tema é o combate entre Aquiles e o herói dos troianos, Heitor. Também a Odisséia tem dois planos de ação. Além de nos contar das aventuras de Odisseu, um dos heróis gregos naquela guerra, em retorno ao seu reino de Ítaca, mostra a evolução espiritual de seu filho Telêmaco, em busca pelo pai perdido e por uma solução para a afronta doméstica, representada pelos pretendentes de sua mãe. A autoria de ambos os poemas é atribuída a Homero, embora se saiba da existência de versões diversas do texto, até a edição de Aristarco de Samotrácia (Alexandria, 150 a.C.) que, baseada na forma mais ou menos constante que se tem desde pelo menos 550 a.C., é considerada como definitiva.
O estilo narrativo é muito diferente de um texto para o outro. O poeta da Ilíada não traz considerações mais profundas sobre a formação e natureza de suas personagens. Elas agem de modo a formar uma idealização (de cujo fundamento pretendo tratar adiante) de uma sociedade de guerreiros, os quais sofrem a determinação constante da ação dos deuses em seus destinos. A vida bruta do guerreiro e a busca da virtude cavalheiresca e sua conseqüente honra como imperativo social mostram uma visão de mundo que poderíamos denominar, de certa forma, naturalista.
A celebração dessa virtude cavalheiresca, aliás, é o próprio intuito do poema. Essa virtude ou areté, próxima ao ideal dos cavaleiros medievais, deveria ser constantemente provada mediante os feitos heróicos dos nobres (aristoi, detentores legítimos da virtude), tanto em tempos de guerra quanto de paz, principalmente através das aristéias, combates singulares entre aristocratas. A Ilíada em seu conjunto é a narrativa da grande aristéia da guerra de Tróia, o combate entre Aquiles e Heitor[2]. À questão da areté retornaremos mais adiante.
O fato de concentrar-se nesta aristéia, como o evento mais intenso da guerra, evidencia um dos aspectos da genialidade das epopéias homéricas. Em lugar de proceder com uma exaustiva narração de todos os eventos da guerra, ou mesmo da vida do próprio Aquiles, o poeta concentra-se no drama de maior relevo, mencionando os acontecimentos anteriores e posteriores apenas naquilo em que são relevantes para o entendimento dos eventos que têm lugar no tempo em que se passa a ação[3]. Jaeger afirma, com acerto, que qualquer tentativa de estender a ação até a morte de Aquiles significa ignorar a intenção artística do poema, pois a certeza da morte não é a continuação natural do enredo para o futuro, e sim o motivo maior do engrandecimento do herói no presente.
Por sua vez, a Odisséia encerra uma concepção mais realista de mundo, já que o foco está na descrição de personagens nobres (inclusive em seu aspecto subjetivo), vistas de modo mais humanizado, menos perfeito. As personagens são bastante verossímeis, sendo possível partilhar de seus pensamentos e daquilo que as atormentam, enquanto que é virtualmente impossível imaginar as personagens da Ilíada fora de combate. A Odisséia, tal como está, não poderia ser concebida nos mesmos moldes da narrativa da Ilíada, por estar centrada no cenário doméstico. Esta diferente perspectiva levou muitos autores a julgar ser o autor da Odisséia alguém de convívio mais próximo com o elemento nobre de seu tempo. Se na Ilíada temos a nobreza beirando a perfeição, a Odisséia apresenta o caráter como algo não definitivamente ligado às condições de nascimento, muito embora ainda seja natural que se espere uma conduta cordial dos nobres, condizente com seu ideal de areté. Isto fica claro com o comportamento agressivo dos pretendentes de Penélope, e a incompatibilidade de tal atitude com sua posição social. Diante de tudo isso, é natural que areté caminhe, ainda que não de forma definitiva, para o sentido atual de virtude, que considera seu aspecto moral.
Embora também neste poema esteja presente a influência do elemento sobrenatural / divino nas ações do homem, esta se dá mais sob a forma de inspiração divina do que ação direta de um deus no sentido de modificar o curso dos acontecimentos. Talvez o maior exemplo desta afirmação seja a Telemaquia, parte inicial da Odisséia, em que Telêmaco, filho de Odisseu e príncipe de Ítaca, recebe aconselhamento por parte da deusa Palas Atena acerca do modo como deveria agir na ausência de seu pai. A intervenção da deusa é de suma importância, pois servirá para transformar o jovem então delicado e inexperiente em útil aliado de seu pai no restabelecimento da ordem em sua casa, quando da chegada deste. A evolução do comportamento de Telêmaco é indiscutivelmente direcionada para este clímax.
A análise psicológica não é muito desenvolvida na Ilíada, em favor da supervalorização e enaltecimento de todo tipo de qualidade. A discrepância entre as perspectivas é notável até mesmo na adjetivação usada para as personagens, que serve para destacar a virtude guerreira e propiciar uma aproximação psicológica com a personagem, na Ilíada e Odisséia, respectivamente[4] [5].
Diante disso, é fácil entender o problema histórico (embora não seja fácil resolvê-lo). A sociedade instável de nobres guerreiros apresentada pela Ilíada é compatível com o período das migrações das tribos de aqueus, em seu processo de incursão no território grego (séculos XX a XII a.C.). Tal data é compatível com o apogeu e desaparecimento do sítio de Tróia VI, tido como o período mais esplendoroso do desenvolvimento dessa cidade (1900 a 1240 a.C.), conforme atestaram as escavações conduzidas pelo arqueólogo alemão Heinrich Schliemann[6]. No entanto, a Odisséia não pode ser fruto de tal época, uma vez que a sociedade estável e politicamente bem definida que o poema apresenta simplesmente não poderia existir no período citado. Jaeger situa a criação da Odisséia como anterior a Hesíodo, e a racionalidade expressa no poema seria reflexo de seu surgimento na tradição jônica, dentro da qual, pouco mais tarde, floresceriam os primeiros filósofos físicos.
Não se pode atribuir a autoria de ambos os poemas a um único indivíduo, nem situá-los em um único período. Porém, considerar a totalidade das obras como uma unidade é importante quando se trata de analisar a significação de seu legado sobre a formação cultural helênica, como veremos a seguir.
3.0 – Impacto da epopéia homérica sobre a civilização grega
3.1 – Aspecto educacional de Homero
As narrativas homéricas desempenharam papel importante em relação ao desenvolvimento cultural dos gregos, uma vez que a poesia era considerada veículo educador por excelência, não havendo dissociação entre o valor estético da arte e o seu conteúdo ético. Ambos encontravam-se intimamente ligados, tendo importância profunda para o valor da obra. A idéia de autonomia estética da arte, que permite a apreciação dos poemas pela beleza de sua forma, dispensando-se reflexões sobre seu conteúdo, teria sido uma concepção da retórica e, posteriormente, do pensamento cristão, que assim teria permitido a sobrevivência dos poemas, agora convertidos em manifestação da “mitologia”. Ou seja, poderiam ser admirados simplesmente por sua beleza, desconsiderando-se a profundidade da mensagem enquanto expressão de religião pagã. Pretendo, daqui em diante, apresentar esse conteúdo de que as epopéias homéricas seriam portadoras.
Os gregos buscaram encontrar, em tudo quanto fosse objeto de sua reflexão, as leis gerais que regem os diversos fenômenos. Isso não poderia deixar de ocorrer também em relação à idéia de homem elaborada por eles. Pensar o ser humano conduziu o grego à concepção de indivíduo, em contraposição ao cenário geral da antigüidade oriental, na qual os homens representam uma massa rígida, curvada perante um Estado onipotente. Essa constatação é crucial para o entendimento da evolução que a Grécia representou em áreas tais como a Política, com o advento da idéia de democracia; e a Filosofia, em seu desenvolvimento desde os problemas da natureza até os problemas do ser humano. A noção de indivíduo, elaborada nesses moldes, não significou a consideração de um “eu” subjetivo, e sim a construção de um tipo ideal de ser humano.
Homero é quem vai estabelecer as qualidades desse homem idealizado, sendo a característica central dessa construção a areté, tal como a apresentamos em 2.0. A areté não é um conceito que se encerra em si mesmo. A conseqüência de seu reconhecimento é que assume valor importantíssimo, pois significa a atribuição de honra ao indivíduo virtuoso ou, no dizer de Aristóteles, a honra é o prêmio pago à virtude. Ao contrário da formulação posterior da idéia de virtude, que geralmente prescinde do reconhecimento externo, a honra em Homero é a retribuição natural à conduta virtuosa, de modo que não honrar o guerreiro virtuoso significa não reconhecer nele a areté. No cenário da guerra, a honraria se dá pela oferta do espólio da batalha ao herói. Somente assim podemos compreender o fato de Aquiles retirar-se da batalha após ter Criseida, que lhe fora dada pelos gregos como prêmio por suas qualidades de guerreiro, tomada por Agamemnon. A consideração conjunta do significado da areté e a clara reprovação do poeta à atitude de Agamemnon ajudam a perceber na reação de Aquiles o repúdio à injustiça sofrida, em vez de um mero exemplo de egoísmo ou narcisismo.
No contexto da Grécia arcaica, a nobreza, apoiada no tripé tradição / vida sedentária / propriedade, é a única classe onde é possível se conceber uma transmissão consciente das formas de vida, com o fim de propiciar a suas gerações atingir o ideal de homem apresentado. Deve-se a isso a posição central dos nobres na ação, bem como a ligação indissociável entre areté e nobreza. Também é notável o papel diferenciado da mulher, que não é vista pelo aspecto da utilidade, como fará Hesíodo, nem como mera mãe dos filhos legítimos, como será no seio da burguesia posterior. A importância feminina está, mais explicitamente na Odisséia, em seu papel de mãe de uma geração ilustre, tanto pela consciência da relação entre areté e nobreza (esta, como já vimos, só se justifica pela constante demonstração daquela), quanto por ser a mulher a responsável por desempenhar, em razão do cenário doméstico, a manutenção das tradições e do modo de ser da classe. Seus protótipos são Penélope, Nausícaa e Atena.
Até agora tenho afirmado ser a poesia forma usada eficazmente pelos gregos com a intenção educadora. A eleição da arte como veículo de expressão de valores éticos se deve ao fato de ela possuir um poder ilimitado de conversão espiritual – psicagogia – , estando dotada simultaneamente de duas modalidades de ação espiritual: validade universal e plenitude imediata e viva. Assim, supera em amplitude a vida real e a reflexão filosófica, pois esta é universal por penetrar na essência das coisas, mas seu alcance é restringido pelos diversos níveis de vivência pessoal; enquanto aquela possui a plenitude da experiência, desprovida, porém, de sentido universal. Tais características não são exclusivas dos gregos, nem aplicáveis à arte de todos os tempos e culturas. Mas é entre os helenos que essa observação atinge maior validade.
Além do alcance universal da arte, a epopéia homérica se vale, em sua ação educadora, da força do exemplo. O exemplo é o recurso dos mais antigos e eficazes para se transmitir alguma lição. O discurso de Fênix a Aquiles, acerca da nocividade da cólera, menciona o exemplo de Meléagro. Na Odisséia, Atena inspira Telêmaco com a alusão à vingança de Orestes contra Egisto, assassino de seu pai.
Em última análise, Ilíada e Odisséia apresentam, nas figuras de Aquiles e Telêmaco, dois protótipos antitéticos da educação. Aquiles entrega-se à paixão da fúria, apesar dos sábios conselhos de Fênix, amigo fiel e experiente, no sentido de não resistir de forma tão impetuosa à reaproximação com os aqueus. Por sua vez, Telêmaco representa uma demonstração de como um jovem, guiado para um fim maior, pode atingir sua meta através de uma postura que aceita com docilidade os ensinamentos da experiência.
3.2 – Religião e filosofia
Já tive a oportunidade de opor a noção de homem dos gregos àquela dos povos da dita antigüidade oriental. Retorno a ela agora, a fim de mostrar o abismo que separa as duas culturas, sob o aspecto religioso. Em oposição ao já decantado antropocentrismo grego, há, entre os orientais, a ordenação teomórfica do mundo. Em ambos os sistemas, há a intervenção divina nos eventos terrenos. Porém, a idéia da individualidade do homem aduz, entre os gregos, à necessidade de decompor a observação da realidade segundo os desígnios divinos e o efeito destes sobre os homens. É uma postura na qual a consideração psicológica e a metafísica são organicamente complementares, nunca excludentes. Deste ponto de vista, as epopéias homéricas se distinguem não apenas de seus similares orientais, mas também da epopéia medieval, em que impera a ótica estritamente subjetiva.
Isto merece uma reflexão profunda, a fim de que se possa perceber que a concepção poética de Homero leva necessariamente a uma análise holística do mundo, ou seja, a coexistência de um plano divino e um humano implica a consideração dos acontecimentos de uma perspectiva absoluta, sempre. Apenas o poeta, condutor da narrativa, percebe e transmite a natureza dúplice da ação. Ao tratar do problema do homem em sua significação absoluta e em conexão com as normas que governam o próprio universo, a épica grega assume um caráter muito mais total, objetivo e profundo, que só se repetirá, segundo Jaeger, em Dante Alighieri. Desnecessário ressaltar a importância de semelhante visão de conjunto, não apenas para a religião, mas para a própria evolução do pensamento.
O Olimpo de Homero é um reino de luz. Humanizados em forma e atitude, os deuses ficam mais próximos do homem, racionalizando a religião e excluindo do culto as formas monstruosas e as práticas de feitiçaria, que passam a aparecer na tradição apenas como exemplo de desvio patológico daquela que deveria ser a verdadeira expressão da religiosidade[7]. Se uma pluralidade de divindades dispostas a fazer prevalecer sua vontade no universo poderia significar uma desordem, a presença de um Zeus soberano, detentor da palavra final no conselho dos deuses, garante a manutenção da ordem cósmica. Isto é muito relevante para nós. Atribuir a causa das coisas, em última instância, a Zeus foi a forma encontrada pelo poeta para resolver a delicada exigência moral e religiosa de conciliar a multiplicidade de deuses com a concepção de um comando ordenado e unitário do mundo. Isto vai dar, em seguida, na noção de arché dos pré-socráticos, como ordem em que se funda todas as coisas, aqui representada pelo papel de Zeus.
4.0 – Bibliografia
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Edipro. [s.d.]
BUTLER, Samuel (adap.). The Iliad of Homer and The Odyssey. Great books of the western world. Encyclopaedia Britannica. 1952.
CERAM, C.W. Deuses, Túmulos e Sábios: o romance da arqueologia. São Paulo. Melhoramentos. 1991.
JAEGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo. Martins Fontes. 1995.
PEREIRA, Maria Helena da Rocha. Estudos de História da Cultura Clássica I: Grécia. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian. 2003.
PLATÃO. Fedro, in Plato. Great books of the western world. Encyclopaedia Britannica. 1952.
SOUZA, José Cavalcante de (org.). Os pré-socráticos: vida e obra. Os Pensadores. São Paulo. Nova Cultural. 1999
[1] A respeito, leia-se a nota bibliográfica sobre Homero, constante da tradução das epopéias por Samuel Butler: “Homer is not a man known to have existed, to whom the authorship of the Iliad and Odyssey is imputed. Homer is the author of the Homeric poems, a hypothesis constructed to account for their existence and quality. There were several ‘lives of Homer’ in antiquity. Their date is uncertain, but the Homer they present is certainly a figure of romance and conjecture. (...) Extrinsic evidence, then, does not reveal an Iliad or Odyssey, written poems, in anything like their present form, before 550 B.C. However, intrinsic evidence convinces scholars that such a date was a late stage in the history of ‘Homeric’ poetry. To reconstruct that history has always been the Homeric problem. This reconstruction, when made by argument from the text of the present poems, has sometimes seemed to involve a denial of their artistic unity. Certain scholars have seen the epics as only imperfectly unified, resulting from accretion to an imagined short original or from a joining of several remembered songs. Further, the poems have been held to be neither of the same period, nor by the same author; Samuel Butler contended on this last point that the Odyssey was written by a woman.”
[2] A narrativa inteira, aliás, está concentrada nas aristéias dos diversos heróis aqueus e troianos, já que estas oferecem elementos mais ricos e dignos da nobreza do que os grandes combates de multidões, os quais só fazem sentido neste contexto com a atuação notável dos heróis no meio das massas.
[3] É o caso da referência feita à motivação da guerra (o rapto de Helena) e do célebre episódio do cavalo de Tróia, que não se encontra na Ilíada, mas no canto VIII da Odisséia, cantado por um bardo, em forma de flashback. Também a referência prévia à morte de Aquiles em combate. O fato de o herói permanecer no campo de batalha, mesmo tendo consciência de que nele encontrará o seu fim, evidencia um aspecto importante da areté.
[4] Quanto à adjetivação, cabe lembrar o largo uso, na Ilíada, de epítetos junto aos nomes dos heróis, destacando suas qualidades guerreiras, físicas e nobres, enquanto que seu uso na Odisséia serve à tradução do que se passa na psique. Um exemplo fortíssimo é a caracterização da mulher. Os comentadores antigos apontam a avaliação da cativa Criseida por Agamemnon como resumidora de todo o conteúdo da areté feminina (boa presença, estatura, prudência e linhagem), enquanto a Odisséia realça o temperamento e virtudes domésticas de Penélope.
[5] Quero fazer uma observação, no sentido de que não pretendo afirmar a ausência de análise psicológica na Ilíada, apenas que, na Odisséia, ela é mais elaborada. Tal ressalva é necessária no sentido de evitar a impressão de contradição em relação às partes finais do presente texto.
[6] A respeito de Schliemann, v. C.W. Ceram, Deuses, Túmulos e Sábios.
[7] Lembro-me de ter usado o mito de Medéia como exemplo dessa tendência, ao que se opôs ser esse exemplo muito discutível. Sinceramente, faltam-me informações a respeito.
