sábado, 22 de março de 2008

(des)Encanto

Semana Santa na televisão é SEMPRE a mesma coisa... filme da Paixão de Cristo, de Moisés, Príncipe do Egito et cetera e tal...

Não que eu ache ruim. Agora mesmo, estou assistindo a um filme sobre Moisés (mais especificamente a cena em que os primogênitos dos egípcios morrem)... Curto a tentativa de reconstituição histórica e cultural da coisa toda. Para alguém que quando mais jovem queria ser arqueólogo (taí um exemplo de como muitas coisas acabam perdendo o encanto com o passar do tempo...essa idéia vai permear todo o texto), todo esse clima de Antigüidade é bastante convidativo.

Mas ultimamente, em relação aos relatos religiosos de um modo geral, tenho refletido mais sobre o fascínio das estórias do que sobre a confirmação da História. Tudo ao mesmo tempo épico e singelo, terno e retumbante.

(opa, Moisés está abrindo o Mar Vermelho agora).

Há um aspecto particular que me encanta e intriga: os deuses eram tão mais próximos de nós antigamente! Falavam conosco, combatiam conosco... alguns até transavam conosco (não que eu me inclua aqui, foi força de expressão). Por que será que, depois da Antigüidade, a atuação de todas as entidades de todos os panteões parece ter se tornado mais discreta?

Credo quia absurdum, dizia Tertuliano. Diante do que se afigurava para nós absurdo, só restava mesmo crer. Hoje a ciência está aí, explicando fenômenos outrora assombrosos (agorinha mesmo, Moisés tirou água da pedra), não deixando muito lugar para divindades, santos e mitos no coração das pessoas.

Por amor à filologia e ao meu último post, quando eu criticava a mania de citações, tenho que fazer um parêntese aqui: Tertuliano nunca disse essa frase. O texto original dizia credibile est, quia ineptum est (De carne Christi 5.4); e dizia respeito, como sugere o título da obra, à polêmica presente nos primeiros tempos do Cristianismo, a saber: seria Cristo feito de carne como nós ou uma presença imaterial? (à primeira vista ambas as frases têm idêntico sentido, e o tema cabalístico demais para desenvolver aqui, portanto remeto o leitor de uma vez por todas para http://www.tertullian.org/articles/sider_credo.htm ).

Voltando. A ciência ultimamente tem se "intrometido" muito na seara da religião, que a meu ver não tem que ter tanto compromisso com racionalidade. Pelo menos não por si. Mas o raciocínio que se propõe lógico, científico e irrefutável está sempre visitando o campo da religião. Às vezes, isso acontece por convite da própria religião, como se deu com a adaptação do aristotelismo ao catolicismo (influência inexistente entre os cristãos orientais) ou, para pensar num exemplo mais afastado de nossa realidade, com o Budismo indiano, que através dos tratados do Abhidhamma Pitaka pretende descrever o conjunto de todas as sensações possíveis através do cruzamento de séries de categorias fundamentais, ou seja, conferindo lógica a Maya (o mundo visível) por meio de permutações.

É, parece que o homem está mesmo disposto a trocar a sarça ardente do deserto pela árvore de possibilidades da matemática (diga-se, aliás, que no colégio esta me parecia muito mais árida).

Outras vezes, a ciência faz suas incursões à revelia da religião. Desde as bizarrices - nem tão bizarras assim - do v. Däniken, que corre o mundo tentando provar que os deuses na verdade eram astronautas, até os cientistas que atribuíram as pragas do Egito a um desequilíbrio ambiental, passando por muito mais coisas que soam um tanto desnecessárias.

Justiça seja feita, muitas vezes a reação da religião diante da ciência é desproporcional e tola (Galileu e células-tronco são casos paradigmáticos).

Não penso, entretanto, que tudo se resuma a uma treta de foice entre a fé e o ceticismo do progresso da ciência, por mais que estejamos vivendo uma nova revolução tecnológica, a passos muito mais largos do que as anteriores, e quase ninguém se dê conta disso.

Talvez seja o homem que se desencantou. Faz alguns milênios que trocamos as florestas pela civilização, novos espaços foram se diferenciando desde então (política, economia e mesmo família...campos que antes caminhavam junto da religião) e isolando o espaço do fantástico. Nos afastamos da natureza e, conseqüentemente, do divino. Quer coisa mais discrepante do que procissão de domingo de Ramos no centro de São Paulo? A esse respeito, vale lembrar que existem estudos muito interessantes - sim, científicos - sobre a correlação entre a diversidade do ecossistema e a pluralidade de entidades duma religião (o que ajudaria a entender o porquê de os povos do monótono deserto tenderem à monolatria enquanto que os gregos tinham aquela multidão de deuses...).

É isso. Talvez eu esteja me encaminhando para conclusões um tanto românticas e idealistas, motivo pelo qual fico por aqui.

Oxalá um pagão ainda eu fosse,
Por velhas ilusões acalentado.
A paisagem seria bem mais doce
E o mundo muito menos desolado

William Wordsworth, poeta inglês (1770-1850).

(E Moisés acaba de receber as tábuas da Lei).

9 comentários:

yukitori disse...

Seu texto me lembrou crianças.
Acreditamos em várias historinhas... vamos crescendo, aprendendo a ciência e vamos nos esquecendo dos velhos contos.

Talvez a humanidade seja um adolescente agora. Ainda acredita em velhos contos, mas já está começando a ser mais cético. Qual dos dois será melhor? Não sei... eu me encaixo no time dos que acreditam na ciência, embora tenha a cabeça mais aberta pra algumas experiências pouco explicáveis logicamente.

E acho muito mais divertido pensar que existam vários deuses e que eles eram como os mortais, tão depravados e humanos quanto. :P

Daniel disse...

E isso me volta a ontem, quando uma gúria no msn começa a mandar mensagens de que eu tinha uma falsa felicidade sem Deus no coração...não que isso me incomode mas a frase: "Você vive uma vida de felicidades falsas" ou algo assim, achei um tanto quanto ofensiva, pois pense se eu fosse islã, budista ou oque for, isso seria pra mim uma ofensa direta a qualquer crença que eu tenha.

E me pergunto, o porque maldição esse povo gosta de gastar tempo em discussões sem fundamento, uma coisa é discutir fundamentos das religiões, explicar o porque fazem isso e deixam de fazer aquilo, mas porra, ficar nessa de a minha é melhor é equivalente a crianças de 5 anos falando que "meu carrinho é melhor."

E a ciência as vezes entre na mesma história.

Bom, resumindo, acho que cada um deveria manter-se dentro de seus limites.

yukitori disse...

Eu já cansei de ter discussões improdutivas com os presbiterianos do Mackenzie... eu não vou aceitar as crenças deles e eles não vão aceitar as minhas, embora ainda haja respeito.

Cada um pensa que sua religião é mais importante que as outras. Mas a falsa felicidade aew é totalmente discutível... :P

Leonardo Passinato disse...

isso porque você nunca discutiu com os Opus Dei da Sanfran...enfim, deixa baixo XD

E tem muito ateu pseudo-intelectual por aí se achando o ápice da inteligência humana...ô, arrogância...

De qualquer modo, dizer o que devemos pensar pra sermos "verdadeiramente" felizes é uma tremenda pretensão, senão uma sacanagem.

hoje ainda eu ouvi falar de uma teoria da física que, em última análise, significa que o que está na consciência está no mundo...algo do tipo "se você crê, então existe". Aquela velha história de que o elétron só está lá quando você olha pra ele...ou, fazendo paralelo com a religião, os zen-budistas costumam usar questões para preparar a mente para a meditação (isso tudo me dizia um amigo zen-budista, eu nada sei de mim mesmo a respeito)...uma dessas questões, segundo ele, é: "qual o som da árvore que cai na floresta sem que haja ninguém lá para escutá-la?"


Em suma: cada um que encontre sua verdade e sua felicidade (ou qualquer outra conseqüência que julgar plausível)

D-mariano disse...

Mas a falsa felicidade ai ela ignorou quando indaguei sobre isso. Na verdade foi um monologo já que a garota ignorou qualquer coisa que tentei falar, acho que o funcionamento deve ser mais ou menos assim na mente deles: Se estou falando do Ser Maior(seja la qualquer for a divindade, de Deus a Albert Einstein para os fisicos ateistas) minha palavra se torna a dele, logo incontestável.

Mas pra mim é simples, se a pessoa esta bem, e não está seguindo a lei de respeitar o próximo está perfeito, viva como quiser, acreditando no que quiser.

E devo dizer que se decidirem revogar essa lei de respeito ao próximo e mudar para respeite quem merece eu não ligo nem um pouco. xD

Nefelibata disse...

Nietzsche faz uma crítica ao cristianismo, que se estende às três grandes religiões semíticas. Diz que, para crerem no seu deus, os fiéis precisam de uma "prova de verdade".

Isso, na verdade, desvela para mim toda a pesada cortina do tempo que oculta as relações políticas complexas que havia entre os vários povos e nômades do Oriente Médio. Como a "divindade" estava diretamente ligada ao sacerdócio, e este ao poder das pessoas, vemos uma espécie de troca política; os sacerdotes oferecem "provas" por "seguidores".

Isso se reflete até hoje, com muitas pessoas buscando religião como "ultima ratio", despesperadas. Isso é até condenável, mas relaxo porque, afinal de contas, as pessoas estão desesperadas. E também, se é feio ir atrás de alguém (ou de algo, no caso) só para pedir ajuda, mais horroroso ainda é cobrar gratidão pela caridade.

Mas o ponto que creio ser do texto não é especificamente nada disso. Interpreto-o como uma dicotomia entre fé e razão. Ora, esses são tipos ideais, não existe nenhuma fé tão cega que prescinda de todo e qualquer raciocínio de causa-efeito e nenhuma razão que não pressuponha um axioma. Porém, sofremos hoje os efeitos de séculos de fé exacerbada seguida de racionalismo exacerbado.

Um dos resultados, ao qual me limito neste comentário (sim, é só um comentário, mas tá quase que virando outro post XD) é o espiritismo. Já deixo claro que, depois do budismo, o espiritismo é a religião que mais admiro (se for correto o uso do termo "religião"). Mas conversando com algumas pessoas que freqüentam os ensinamentos de Kardec, eu vi como elas valorizam a religião na medida em que recebem "provas" de, por exemplo, existência de outras vidas (ou seja, um jeito de driblar a morte). Mesmo cristãos, que se valem de milagres para dizer que seu deus existe, ou que Jesus realmente fez muito por nós.

E eu penso que, na verdade, não há a mínima importância em saber se a história de Jesus é verdadeira ou se existe a reencarnação. Os ensinamentos que em geral as religiões nos passam são lindos e devemos sim guardá-los no coração. Eu, pelo menos, não preciso de nenhuma "prova de verdade" ou "milagre" ou "demonstração de poder" para amar meu próximo como a mim mesmo...

Enfim, chega XD

Parabéns pelo texto, Léo. Está lindo, com sutilezas deliciosas!

Abração e continuemos!

Leonardo Passinato disse...

retificando o que eu disse acima:

"Em suma: cada um que encontre sua verdade e sua felicidade (ou qualquer outra conseqüência que julgar plausível, desde que isso não signifique desrespeitar os outros)".

dia desses eu lembro que uma conhecida, cuja religião ignoro qual seja, pois peguei a conversa pela metade, dizia: "pouco me importa se for verdade ou não, me importa que eu acredito e isso me faz bem!"


Tá certa, ela.

Mário Augusto disse...

Ressentimento.
A busca pela defesa de nossa fragilidade, ao menos para Freud e Nietzsche, cria os Deuses, as explicações místicas e míticas. Para Jung, e concordo com ele, trata-se de uma exteriorização de nossas experiências psíquicas com o mundo, de nossas necessidades, frustações, desejos, potencialidades... Ainda para Jung, encontrar a Deus é encontrar a si mesmo... "Self", Geová, Alá, Zeus, Zaratustra, Mitra... São todos expressões do mais íntimo do ser humano, do encontro entre as forças construtivas e destrutivas presentes em todos nós. A herança racionalista-monoteísta nos afastou do nosso "lado negro da força", e invariavelmente, a ele retornaríamos. Talvez seja o que acontece hoje. Seja qual for o "deus" de nossos dias, a Ciência, a Razão, a Tecnologia, o Consumo e a Novidade, devemos lembrar que não se pode escapar à vida sem olhar para si mesmo. Insistimos (a humanidade) em não compreender e em não aceitar o Outro. E nele nos transformamos.
Não sei se houve desencanto pelo místico, ou se houve mistificação e encanto da Razão... Impossível pensar que o homem viva sem fé e sem encanto, talvez o encanto tenha mudado de forma: do ritual para o técnico... Fico muito pacificado quando vejo textos como o seu,Leo. Ainda há encanto! E tolerância! E nos dias de hoje, isso é divino!

Abração!

Anônimo disse...

Aqui é o Panula...na verdade eu não queria postar anônimo, mas esqueci minha senha....anyway...pra quem gosta de estudar e conhecer religiões, sugiro a Fé Bahai....é uma religião interessante no mínimo. Mas não posso dizer mais pq abandonei meus estudos há algum tempo...sei lá, nos meus 15 anos. E desculpem se isso pareceu algo como uma tentativa de "catequização", juro q é só uma sugestão mesmo, hauhauhua