segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Do haikai a Platão, a destragédia do ocidente.

Hoje eu quero me redimir. Primeiramente, pelo fato de não ter atualizado este blog nos últimos três meses. Também, em razão de simplesmente ter esquecido de compartilhar com todos sobre o colóquio internacional sobre o pensamento japonês, promovido pela Fundação Japão nos dias 28 e 29 de novembro, cujas palestras me renderam a maioria dos insights no texto que segue. Encarem tal texto como uma tentativa de partilhar aquilo que lá ouvi, entremeado de minhas confusas considerações pessoais.

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Quase todo mundo já ouviu falar em haikai, forma poética japonesa cuja norma clássica foi estabelecida por Matsuo Bashô, pseudônimo de Matsuo Munefusa (1644-1694). O genuino haikai se trata de uma poesia em três versos, no esquema 5-7-5 sílabas. Minimalista, não tem rimas nem aparenta recorrer a qualquer tipo de metáfora ou figura de linguagem. Nem título há. Sua temática não remete a sentimentos ou qualquer subjetividade, sempre se falando da natureza. A idéia do poema é justamente transmitir o que se vê. Nada mais.

Existe uma razão profunda para isso, advinda do pensamento zen-budista. Essa corrente de pensamento se vale de diversos exercícios para tentar enxergar, na sua própria contingência, o que há por trás dos fenômenos. A idéia é desconstruir a realidade através da apreensão de um instante, em sua estrutura discreta. Vejamos o poema de Bashô:

yoku mireba
nazuna hana saku
kakine kana

Se se observar com cuidado
a flor da nazuna floresce
junto à cerca!

A interpretação que se faz desse poema sempre ressalta o fato de que o "olhar com cuidado" implica que o eu-lírico não é mais mero observador, e que a flor ganha consistência e eloqüência em sua própria existência. Trocando em miúdos: sujeito e objeto interagem, e assim o conhecimento se constrói. Trata-se de uma visão do processo cognitivo como comunicação entre o homem e o mundo, e não como apreensão deste por aquele. O homem, que na tradição ocidental desde Platão foge da compreensão originária e direta das coisas pela observação, assume aqui a posição de um centro mole, tão passível de transformações quanto aquilo que ele vê. Quem vê é também visto. Sujeito e objeto são uma e só coisa.

O fato é que o páli e o sânscrito, línguas de que se serviu a doutrina budista, na Índia, e o próprio japonês, embora de forma mais sutil, se utilizam da chamada voz média para expressar essa diluição entre sujeito e objeto.

Em português não existe essa figura da voz média, ao menos como uma categoria separada daquilo que se entende como voz ativa e voz passiva. Tal diferenciação não existe nas línguas latinas e, por conseqüência, não foi estabelecida na gramática moderna do japonês, a qual se baseou nas categorias do latim (daí eu ter dito pouco antes que a presença da voz média do japonês é sutil).

Voltando: a voz ativa expressa a ação exercida pelo sujeito; e a voz passiva, a ação sobre o sujeito. Já a voz média expressará o meio termo ou a ausência dessa relação: a ação do verbo não é exercida por ninguém, nem sobre ninguém; ou é exercida pelo sujeito sobre si próprio - o que chamamos de voz reflexiva. A língua mais próxima de nós que estruturou explicitamente uma voz média foi o grego (é, nem tão próxima assim...). É o caso da forma phainestai (mostrar-se), que deu origem depois à palavra phainomenon (fenômeno). Não à toa, Heidegger tentou se valer de formas mediais para desenvolver a sua fenomenologia, vez que o fenômeno nada mais é do que "o ente se mostrando". Um caso de voz média. Todo vir-a-ser só se pode exprimir por meio de construções mediais, pois não se sabe o que está para surgir desse processo, em que ainda não se tem o sujeito, tampouco o objeto.

Outro exemplo menos obscuro, também do grego, mas que nos remete outra vez ao Bashô e à flor de nazuna, é o dos verbos relativos aos sentidos. A gente não vê a flor, a flor é que se mostra aos nossos olhos. Não que ela esteja conscientemente fazendo isso, é claro, mas em virtude da comunicação do eu com o mundo, como eu havia dito.

O fato é que, no fim das contas, esse pensamento nos leva a uma tautologia boa... nós modificamos o mundo, que também nos modifica... tudo se contamina de tudo, com tudo se misturando. Diante disso, fica até mais fácil compreender o porquê de os gregos e os orientais encararem o mundo de maneira cíclica, enquanto que os ocidentais de mentalidade latinizada (lembre-se que o médium inexiste em latim) só conseguem ver o mundo como uma linearidade (começo-meio-fim). Esse tipo de coisa nos privou daquilo que o oriente considera a forma mais pura de conhecimento: a apreensão imediata, aquele átimo em que os sentidos captaram o ser e ainda não houve tempo para se pensar nisso. Se não se pensou, não houve sujeito, se não se pensou, não houve objeto. Só a confusão de um e outro. Médium. Não penso, logo não existo seria uma afirmação muito mais verdadeira do que a originalmente formulada por Descartes.

Aliás, isso nem é uma idéia tão distante assim da gente. Já diria Alberto Caeiro que:

"O único mistério do universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as cousas - eis o erro, a dúvida.
O que existe transcende para mim o que julgo que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada".

Enquanto isso, só me resta concluir que Descartes foi um canalha que buscava a determinação do mundo pela mente, nada mais. Assim como Platão, bem antes dele. Aliás, para infelicidade deste mundo, Platão teve a boa idéia de deixar por escrito suas impressões, que interromperam a tradição científica que vinha se instalando com os pré-socráticos (vale recordar que um desses pensadores já discutia a formação da visão nos mesmos termos do haicaísta Bashô: interação entre a emanação do objeto e a apreensão do sujeito), tradição essa que ficou devidamente sepultada até a Idade Moderna. Tanto maior foi o prejuízo para as gerações do mundo quando toda essa patifaria foi misturada com as neuroses de certo Paulo de Tarso, pois desde então, o homem reina sobre a materialidade do mundo, do qual dispõe com a benção divina. O ser humano se excluiu do processo da vida, do qual pensa ser espectador e beneficiário, numa existência sem conflito nem tragédia, o que lhe fez esquecer os próprios limites. Não se vê mais como uma peça da natureza. Baco foi mandado para as cucuias, que nem o Pan do poema de Barrett Browning ("Pã é morto, Pã é morto!").

Se Apolo perdeu a guerra em Tróia, ganhou todo o mundo moderno de bandeja, com os cumprimentos de Sócrates e Platão.


Notas ao rodapé: 1- Ficou tudo muito confuso. É informação demais, que rendeu viagem demais. Continuamos através dos comentários.
2- A analogia da visão com o conhecimento me fez lembrar que, evolutivamente, a estrutura de percepção da luz é anterior ao cérebro, que se desenvolveu a partir da gradativa aglomeração das células responsáveis pela captação do estímulo luminoso.

5 comentários:

Mário Augusto disse...

Simplesmente genial o texto ,Leo!!!
E o fato de não haver a voz média nas línguas modernas dá muita base para a teoria filológica Nietzscheniana. Lacan e os estruturalistas tratam disso pra kct...
Impressionante como a linguagem pode determinar nossa visão de mundo, nosso modo de sentir e até perceber o mundo...
O trágico residiria justamente no thauma da linguagem, na voz média que nos permitiria deixar o mundo se mostrar... Daí, talvez, o conceito de "alethea" - verdade não como ação comissiva da razão humana, mas como "mero" descortinar, não esquecimento...
Sensacional,Leo!!!
Grande abraço!

Leonardo Passinato disse...

pois é, Mario, não à toa que Nietzsche tava bombando em todas as discussões...

agora eu entendo o que ele quis dizer quando afirmou que não pensava, e sim que os pensamentos vinham até ele.

Paulo disse...

lio, wundabar!!!

"Descartes foi um canalha"... hmm,,, eu vejo aki um fator modificador subjetivo da percepção (a predisposição),,,, huahuhua

ainda q tu descartes Descartes, acho q ele foi um bom sujeito,,, e da última vez q corremos, havia dez karts na pista,,, putz...

(tá vendo,,, isso q dá naum instalarem akele mecanismo q lê o comentário pra pessoa q o escreveu...)

mas eh isso,,, piadas sem graça à parte, ficou excelente o texto!! Gostei mto!

Nefelibata disse...

Fantástico, Léo!

Achei algo delicioso, como você costura tudo muito bem!

Nem preciso dizer que o texto puxou ainda mais meus sorrisos sarcásticos que se deliciavam de "Descartes canalha" para frente! XDDD

Nesse ponto, talvez Nietzsche gostasse bastante de ver que ele não está sozinho no tempo, hein! Já pensou reunir-se com ele num happy hour pra descer lenha em Descartes, Schopenhauer, Platão e Paulo de Tarso?! XD

Fico imaginando o que Anaximandro diria se diria, ou mesmo Heráclito, perante isso... provavelmente ficariam decepcionados com o futuro da humanidade.

Leonardo Passinato disse...

Considere-se este um escrito do "jovem passinato".
To mudando muitas concepções desde então.